sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Das coisas silenciosas

Do dia em que ela resolveu que não comeria mais couve-flor até hoje se passaram três anos. Nesses dias todos ela pecebeu que as coisas que não faziam barulho estavam entre as mais significativas do mundo. A flor do canteiro da rua não fazia, o leite na caixinha retangular não fazia, a nuvem com cara de coelho não fazia, a cutícula que nascia também não.

Nos silêncios que conseguia identificar nas coisas e pessoas, via um intervalo de vida. Um pequeno espaço entre o "a que horas posso ligar então para falar com ele?" e o suspiro de alguém que definitivamente não queria ser atendente de telemarketing. Ali naquele espacinho cabia muito de tudo o que ela não tinha, a moça do telefone.

Os espacinhos estão sempre por aí. Às vezes eles não têm cores, o que nos obriga a sentir mais do que ver. Respirar mais do que tocar, eles estão sempre por aí. Agora mesmo, nesse intervalo entre a música que acabou e a outra que vai começar, consegue sentir? Como ele não tem cor, você pode pinta-lo da que preferir no momento. Eu escolho o amarelo.

domingo, 6 de novembro de 2011

De não precisar tanto

Ah, os insights. Não sei se com você é assim, mas eles me abrem a cabeça vez ou outra. Quando cursava Letras na faculdade (sim, eu fiz isso até admitir que odiava uma disciplinas que não me lembro o nome), havia uma professora chamada Moema e ela era cheia dos insights. Estávamos na aula, carteira atrás de carteira, e ela simplesmente dizia: “gente, tive um insight. Vai todo mundo lá na biblioteca pesquisar sobre literatura portuguesa e depois voltem aqui que vamos conversar sobre o assunto” (ou um verbete qualquer no dicionário, ou sobre a pedagogia do oprimido, ou a receita de um bolo de laranja). E tirava as pessoas da sua normalidade pra fazer teatro, qualquer coisa que desse na cabeça na hora da aula.

Ah sim, os insights. Talvez isso aconteça com todas as pessoas do planeta: viver e respirar apenas, sem nenhuma outra ambição. Mas sentir uma falta de algo, láaaa no fundo da mente ou do coração, que te faça vibrar, que te faça ter vontade de pegar um papel higiênico molhado e fazer uma escultura. Sabe a vontade?

Pois é. Na maioria das vezes a minha vontade fica presa em um buraco, um buraco como aqueles feito em quintais norte americanos para se construir uma piscina. A vontade está lá, andando no quintal e pronta pra ganhar o mundo quando de repente cai no buraco e não consegue sair de lá mais porque os infelizes da obra não colocaram nem uma rampa pra ela. E ela circula, circula e depois de horas, resolve dormir. Tenho várias delas nesse buraco da piscina, olho de vez em quando láaa do alto, tenho vontade de resgatá-las, mas até essa me vai e cai no buraco. Sabe como? Imagino que saiba.

Mas os insights, eles conseguem fazer as vontades saírem todas juntas! Eles aparecem felizes e contagiam tudo à sua volta. Escrever, por exemplo. É vontade constante. Acontece que de repente envelheci, de repente a distância entre a ideia, o impulso e a ação ficaram maiores. A verdade é que se não é pra ser perfeito, se não é pra ser certo, bonito e bacana, prefiro não fazer. Deixo a vontade ir pro buraco por puro perfeccionismo, um pouco de auto boicote também. E aí vem um insight e me faz descobrir: não precisa nada disso, minha gente. Não precisa ser perfeito, não precisa ser legal nem precisa ser artístico, basta que eu goste de fazer. Não precisa ser em terceira pessoa, não precisa colocar açúcar e canela, não precisa pintar com tinta guache, não precisa se preocupar se o tom desafina, se a poeira foi tirada, se o corte está elegante.

A mim me basta ser.

E aí caem por terra (opa, agora sim) as mil teorias que me fazem desacelerar em uma simples lombada a ponto de parar o carro. Quê isso, quê isso.

Sem essa.

Ah, os insights. Obrigada, Moema.
(com a colaboração casual do blog Jaqueline e o país dasmaravilhas e da Mariana Aydar )

"E se eu..."



 Já falei que confundia nostalgia com saudade, certo? Nostalgia = saudade torta, que confunde o que passou na sua memória, limpando as manchas e deixando só os brilhos do raio de sol de dias passados. Saudade = falta de dias que foram importantes de alguma forma. A nostalgia é uma saudade míope, meio burra.


De tempos em tempos eu preciso pegar uma lupa e olhar para o passado, recente ou antigo, como que para me recolocar no centro da minha vida: ei, estamos aqui e é hora de seguir em frente. Moving on. Na maioria das vezes eu simplesmente ignoro o que passou e, com meu carrinho de golfe, vou andando por um campo verde, seguindo o pôr do sol. E sou boa nisso! Consigo passar por fatos e situações quase sem me despentear, lencinho na cabeça e um óculos de sol (mentira que isso não uso) e uma musiquinha indie no som do carro. Sim, meu carrinho de golfe tem rádio, e daí?

Muita gente precisa fazer retiros espirituais pra se encontrar, outras usam drogas, outras fazem psicanálise. Eu me sento em um sofá confortável e olho pra mim mesma, a Gislaine que fui até aqui. Se no dia a dia não consigo avaliar o impacto das minhas (sempre rápidas) decisões, quando faço isso, consigo. E me dá muito orgulho quando concluo que, sim, fiz o que havia de melhor e, sim, mudei pra melhor. Dá um calorzinho no estômago pensar que se eu tivesse optado por isso ou aquilo, não estaria aqui com essa pequena alegria que me acompanha mais agora do que antes.

Mas como eu dizia, pra me colocar no centro de novo da minha minúscula existência, olho pro passado. Claro que nessas horas sou tomada pelos vagalumes do “E se...?”. Eles ficam em volta da minha cabeça enquanto eu imagino todas as consequências que aconteceriam se os “e se...?” fossem “foi assim”. Então os fatos reais são delicadamente empurrados pela minha imaginação que é invadida por linhas diferentes, ações que não realizei, palavras que não disse, ligações que não fiz e ruas por onde não andei. E eles se transformam em um exercício engraçado porque nunca dá pra ir até o final com certeza de que isso ou aquilo teria acontecido. Só o que dá pra ter certeza é: eu não estaria aqui onde estou. E nem saberia que o aqui é bom se eu não tivesse feito aquilo que eu fiz, mas na imaginação não teria feito. Saca?

Eu e meu rolo compressor (sim, o carrinho de golfe TEM um rolo compressor embutido) caminhamos por aí, procurando sempre um lugar melhor para jogar. A planície onde dá para ver longe, longe e onde dá prazer andar cada passo.

Depois que costuro com a linha imaginária o futuro que não me aconteceu, as decisões que tive e os caminhos que deixei para trás, isso tudo forma um desenho bonito na minha cabeça. Claro que todos somos um pouco o que não fizemos, não fazer é uma opção. Não ser é também. Eu sou um pouco do que não quis fazer, do que não sou, do que não escolhi.

Eu gosto dos vagalumes, eles te divertem de noite e vão embora quando o dia clareia.