Há tempos em que os meses são velhos pra mim. Escrevo datas em cadernos: 30/05/2011. Maio de novo? Ele não foi agora a pouco? Abril, junho, são todas datas que já aconteceram. Concordo, você pensa, todos nós já passamos pelos mesmos meses e continuamos passando todos os anos. Mas não é isso. É como se 2011, assim como 2010, já tivesse acontecido inteiro. Com todas as situações embaraçosas que já passei e com todos os dias em que cheguei atrasada ao trabalho. Com todas as jaquetas de frio que já usei e todos os bom dias que distribuí pela cidade.
2011 é um ano que já aconteceu. Talvez a minha vida também já tenha acontecido. A sensação mais presente é de que tudo já foi dito, escrito, filmado. Pode ser, claro, a overdose de informação e tarefas. Tudo já houve e agora é só um remake dirigido por um diretor esloveno com cidadania americana, do tipo alternativo cultuado pelo povo da banda mais bonita da cidade. E aquele arzinho de retrô que dá o charme ao frio de Curitiba. E o chocolate quente que vem com um biscoito amanteigado e você pensa: "uh, uma boa surpresa nesse ano que já aconteceu".
E se o ano já acabou, o mundo também, pois 2012 é um ano com o qual, nos disseram, não devemos ter boas expectativas. Manterei minhas expectativas pulsantes até maio, pelo menos.
Ou não.
sábado, 4 de junho de 2011
quinta-feira, 26 de maio de 2011
A calma e o sistema
Tem momentos em que encontro um silêncio muito grande. Longe daquela ansiedade que me atropela 20 horas por dia, esse silêncio me leva pra um lugar afastado, como se eu estivesse em cima de uma grande montanha. Totalmente em paz. No ônibus, na rua, no trabalho. As pessoas ficam lá, no lugar que eu as deixo ficar: longe, com seus computadores portáteis, smartphones e poros oleosos. É quando eu penso que o céu é tão grande e a gente fica aqui, preso na terra, com os pés que não conseguem subir mais do que um passo depois do outro. E as pessoas longe. E eu simplesmente não penso no tempo, nos deveres, nas contas, nos remédios, e não tenho vontade de falar. Tudo fica bem e eu queria manter isso por mais tempo.
Mas o sistema cai e é preciso comunicar os clientes. E tem de ser agora. E o silêncio vai embora, e a montanha vira areia. E eu volto a ouvir o barulho das pessoas.
O sistema acaba com meu dia.
Mas o sistema cai e é preciso comunicar os clientes. E tem de ser agora. E o silêncio vai embora, e a montanha vira areia. E eu volto a ouvir o barulho das pessoas.
O sistema acaba com meu dia.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
1,2,3 e não
Os gostos de uma pessoa são pedaços dela, e, hoje, se desprendem tão fácil quanto pedaços de cutícula. 1,2,3 e arranco mais uma. E mais uma e outra e oh, não preciso mais ir à manicure.
Que sempre odiei uma pessoa estranha cutucando meus pedaços de pele que nascem onde dizem que não é bonito para uma mulher.
Os interesses, nesses dias, são rápidos e não formam mais a personalidade. São vontades insignificantes, histórias que são compartilhadas entre um café e o botão de curtir do Facebook.
As múltiplas possibilidades só tornam a realidade mais vazia, já que ter em mãos uma caixa de lápis de 36 cores não significa que você irá necessariamente fazer um lindo desenho.
Há mais cores e idéias, mas menos realizações.
É o mesmo com a questão do planejamento. Sou capaz de planejar um dia inteiro de diversão e simplesmente não sair do sofá. Planejar meu orçamento pessoal até 2013 não levar nada a sério. Não comprar um carro em julho, não terminar de pagar as prestações de roupas que nem devia ter comprado. Não ir ao cinema sozinha, não mandar emails para amigos, não sair para conhecer pessoas, não falar com quem gostaria, não tomar um sorvete de Flocos na padaria.
Meu corpo mora em um universo de possibilidades mas minha mente vê um “não” carimbado em cada figurinha do álbum.
domingo, 27 de março de 2011
O Youtube comeu metade do meu cérebro
É tanta coisa pra ver que eu não produzo mais. Tem sempre algum vídeo no Youtube, uma música, um joguinho porcaria no Facebook ou qualquer outra coisa que me deixa parada na frente do computador.
Eu lembro da histeria coletiva sobre a televisão e o problema dos adolescentes gordos comendo Cheetos e tomando Coca enquanto assistiam seriados ou jogavam video games. Mas a banda larga é ainda pior que a tv.
Nos últimos meses sinto que metade do meu cérebro foi comido pela internet e suas interrupções de três minutos e meio na minha vida, trabalho, criatividade, namoro, alegria, hora do almoço, hora de dormir, qualquer coisa no mundo que esteja acontecendo nesse momento. Não importa. Tem sempre alguma coisa pra ver na internet.
O Youtube comeu metade do meu cérebro.
E eu que me dizia multifunção, com orgulho, virei um pato com LER que compartilha conteúdo pros outros patos da mesma lagoa.
Eu lembro da histeria coletiva sobre a televisão e o problema dos adolescentes gordos comendo Cheetos e tomando Coca enquanto assistiam seriados ou jogavam video games. Mas a banda larga é ainda pior que a tv.
Nos últimos meses sinto que metade do meu cérebro foi comido pela internet e suas interrupções de três minutos e meio na minha vida, trabalho, criatividade, namoro, alegria, hora do almoço, hora de dormir, qualquer coisa no mundo que esteja acontecendo nesse momento. Não importa. Tem sempre alguma coisa pra ver na internet.
O Youtube comeu metade do meu cérebro.
E eu que me dizia multifunção, com orgulho, virei um pato com LER que compartilha conteúdo pros outros patos da mesma lagoa.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Desista: você não vai dar conta
Há alguns dias, li que as nossas promessas de início de ano raramente se concretizam, assim como os planejamentos que fazemos no trabalho para dar conta de todos os compromissos.
Isso porque, dizia a reportagem, temos uma tendência a superestimar nossa capacidade de realização. Sim, jogamos para cima a expectativa de concluir o que está na agenda. Olha que coisa boa de se descobrir: somos menores do que pensamos ser.
Daí vêm a depressão de ver os dias passando e os planos ficando para trás. Somos dotados de um otimismo burro que nos faz enxergar nossa sombra do tamanho de uma palmeira quando ela tem, na verdade, o tamanho de um pé de couve.
Isso porque, dizia a reportagem, temos uma tendência a superestimar nossa capacidade de realização. Sim, jogamos para cima a expectativa de concluir o que está na agenda. Olha que coisa boa de se descobrir: somos menores do que pensamos ser.
Daí vêm a depressão de ver os dias passando e os planos ficando para trás. Somos dotados de um otimismo burro que nos faz enxergar nossa sombra do tamanho de uma palmeira quando ela tem, na verdade, o tamanho de um pé de couve.
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Mapa mundi
Essa música do Thiago Petit me faz sentir uma grande nostalgia. E eu descobri que não é saudade, é nostalgia mesmo. Sabe do que se trata? De uma saudade ilusória, uma falta de algo que já deixou de existir ou que jamais existiu, mas na memória está idealizado. E descobri que a maioria das minhas "saudades" são exatamente isso. Ilusórias: como se tudo o que aconteceu de ontem pra antes fosse muito melhor do que o que há agora e vai haver amanhã. Eu sentia uma saudade que doía de pessoas, épocas e acontecimentos. E eles eram totalmente idealizados na minha cabeça, quando na verdade não foram perfeitos e muitos nem tão legais assim. Os sonhos, você sabia?, são feitos do mesmo material que a memória, por isso acontece de os dois se confundirem muitas vezes.
As minhas memórias afetivas são cheias de vontade de voltar atrás, mas esse "atrás" nunca existiu da forma como hoje eu me lembro.
Foi só descobrindo o que é nostalgia que consegui me libertar de várias correntes, muitos fantasmas e algumas questões que martelavam na minha cabeça. Aquelas que te fazem perder a vida pensando "e se eu tivesse feito assim, e não desse outro jeito?". Entendi que é muito mais um truque da mente do que a própria realidade.
Ah, recomendo o cd todo do Petit, Berlim, Texas.
domingo, 23 de janeiro de 2011
E se nada mais?
Acredito que todas as coisas que acontecem ficam gravadas no chão onde pisamos. Há fragmentos de tristezas e prazeres bem aqui debaixo dos meus e dos seus, são pequenos pedaços soltos que largamos ao andar por aí cheios de sentimentos aleatórios.
Agora que você está por perto eu posso falar. Que antes eu ficava só imaginando o quanto as pessoas sofrem por amores não correspondidos e pensava: hum, que bobagem, tanta vida por aí e elas se arrastando em uma vida difícil de levar.
E tudo sempre foi uma bobagem pra mim. Eu via as pessoas se esforçando pra comprar carros e casas e roupas e jóias e I-phones. E aí, e depois? Aliás, a sensação do “e depois” era o que me fazia enrolar o máximo de tempo possível para fazer qualquer coisa. E depois, o que mais teria? E se nada mais?
Eu ouvia músicas ruins e me relacionava com amigos que nem tão próximos eram. Me prendia em afazeres simples pra deixar de pensar que, afinal, podia haver coisas maiores do que a louça na pia e a poeira se acumulando na estante. E haveria?
Pensava em todas as idéias que nunca ia realizar mas que, imaginadas, tinham poder suficiente pra dar mais uma corzinha pras horas até o fim do dia chegar mais uma vez. Fazer o que tinha pra ser feito da maneira mais normal possível com um caminhão de expectativas brigando entre si na cabeça é tão cansativo quanto meditar sem pensar em absolutamente nada. O muito vazio e o muito cheio são igualmente difíceis.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Da vida das pessoas
Foi numa dessas madrugadas que ela resolveu que é preciso ter ilusão para continuar vivendo. Ao menos, vivendo bem. E ela não encorajaria mais ninguém a sair em busca dos sonhos. Mantinha uma cenoura pendurada em barbante, e fazia questão de manter-se à distancia, olhando de longe: ela está lá.
Conquistar não era difícil, as coisas chegavam com o tempo, e de repente se dava conta de que o que fora tão desejado era parte da vida, e nem havia percebido. Podiam ser pequenas, mas eram conquistas. E existia um horizonte inteiro, aberto, rua onde se vê longe e quer chegar ao fim pra ver mais longe ainda.
Ainda não era tempo de realizar, era isso, só isso. Pensava que até as conquistas precisam acontecer no tempo certo, senão não é tão bom. Então cuidava pra que o tempo certo fosse identificado, do contrário, as coisas já não poderiam acontecer.
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Ele tinha acabado de amarrar o cadarço quando percebeu que o ônibus estava perto demais para dar tempo de chegar ao ponto. Então não havia porque se apressar. Fazer um laço no tênis exige concentração e o tamanho exato de cadarço deve sobrar no lado esquerdo, ou ia pensar nisso durante toda a caminhada que viria depois.
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Três anos vivendo entre idosos lhe dera a paciência que falta hoje nas pessoas. Ela é capaz de esperar um sinal abrir, fechar e depois abri de novo para só então atravessar a rua. E isso não lhe causa nenhum tipo de angústia. Admira-se da impaciência de salas de espera. Da rapidez das consultas médicas, do mau humor em filas de banco. Porque todos os momentos em que é obrigada a parar, simplesmente para e não cria expectativas.
Ela tinha fome de pintar, desenhar, fazer roupas, escrever. Queria definir o mundo em uma arte só sua, porque se sabia capaz. Sabia-se grande, a certeza de que quando fosse, ah, quando começasse ia ser maior do que a casa e a rua toda. Todas as ruas juntas, com as pessoas em seus dias de 24 horas e banhos de 10 minutos.
Eram muito poucas as pessoas com as quais se dava ao trabalho de conversar. Falar e falar era tão cansativo! Antes de abrir a boca, ainda com a idéia passando na cabeça, em um milésimo de segundo, já vinha a certeza: não vale a pena. Nunca valia. Assim passaram-se meses, talvez anos, porque também não valia a pena contar.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
...é o fim.
Cansaço de fim de ano é o cansaço de toda uma vida. Ok, a gente confraterniza, faz votos de feliz ano novo, abraça, compra presente, assiste comerciais de tv emocionantes, torce pela nova fase da Hebe e... isso tudo cansa.
As expectativas pelas atividades de final de ano cansam mais do que as próprias atividades. Esperar e planejar tomam mais tempo do que esses poucos dias que sobram pra não fazer nada. Aliás, não sobram, porque nesse tempo você entra em crise achando que todos estão fazendo coisas incríveis, como velejar, acampar, deitar na neve, ir do Oiapoque ao Chuí. É a velha depressão de final de ano, quando tudo tem de dar certo e os progrmas têm de ser os melhores do mundo. "O que você vai fazer na virada do ano?" Esperar dar meia-noite, ué. E olhe lá. Sempre fica a impressão de que poderia ser melhor. "É isso aqui, então? Tudo isso pra... isso?" Chega meia-noite e um e pronto, tudo acabou. Lá se foram as roupas brancas, os fogos de artifício, as uvas, as ondas, os abraços, os sonhos de uma vida melhor.
É igual cozinhar. Demora um tempão pra fazer e só uns minutinhos pra comer. Não tem muita graça.
Claro que depressão de final de ano passa. Depois vêm os planos de ano novo. Todas as coisas super legais que eu sempre quis fazer e nos primeiros dias de janeiro parecem tão possíveis... Mas por hora, tenho só o cansaço.
As expectativas pelas atividades de final de ano cansam mais do que as próprias atividades. Esperar e planejar tomam mais tempo do que esses poucos dias que sobram pra não fazer nada. Aliás, não sobram, porque nesse tempo você entra em crise achando que todos estão fazendo coisas incríveis, como velejar, acampar, deitar na neve, ir do Oiapoque ao Chuí. É a velha depressão de final de ano, quando tudo tem de dar certo e os progrmas têm de ser os melhores do mundo. "O que você vai fazer na virada do ano?" Esperar dar meia-noite, ué. E olhe lá. Sempre fica a impressão de que poderia ser melhor. "É isso aqui, então? Tudo isso pra... isso?" Chega meia-noite e um e pronto, tudo acabou. Lá se foram as roupas brancas, os fogos de artifício, as uvas, as ondas, os abraços, os sonhos de uma vida melhor.
É igual cozinhar. Demora um tempão pra fazer e só uns minutinhos pra comer. Não tem muita graça.
Claro que depressão de final de ano passa. Depois vêm os planos de ano novo. Todas as coisas super legais que eu sempre quis fazer e nos primeiros dias de janeiro parecem tão possíveis... Mas por hora, tenho só o cansaço.
sábado, 25 de dezembro de 2010
O Passado
Comecei a ler um livro chamado "O Passado" e ele, em pessoa, resolveu me aparecer na porta. Não recomendo, mas como o livro parece ser bom e eu sou curiosa, vou até o fim.
Seja lá carma ou o que quiserem chamar.
Seja lá carma ou o que quiserem chamar.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Micromundo
Há sacolas, mundaréu de gente e também o ar abafado. E é difícil andar pelas ruas, tem de fazer esforço para se misturar com as pessoas. Ufa, ao menos é possível parar sob as marquises e fingir esperar sabe Deus o quê. Entrar em uma loja qualquer sem ser importunado por vendedoras. Não, você não pode me ajudar. Se pudesse, moça, gostaria mesmo? Mesmo?
Pode-se, com o calor, fingir pressão baixa e pedir que avaliem sua saúde arterial na farmácia. Os atendentes quase sempre são simpáticos, exceto quando têm vários clientes para satisfazer, como aquele senhor ali, de camisa cor de abóbora, ele tem três receitas diferentes e não lembra qual é a dosagem. E de 10 para 100 miligramas a diferença é só um zero a mais. Não? Não. Ah, os atendentes de farmácia. Assim como os de feira, é preciso certo traquejo na hora de pedir conselhos. Não me vá perguntar porque, sendo o mesmo remédio, o preço é diferente, em coisa de mais de R$ 15. Poucos saberão dizer, raros confessarão que o mais barato foi menos testado e apresenta prevalência de ataques epiléticos em 4% dos usuários. Mais raros ainda serão os que em você perceberão apenas uma crise de carência, dizendo: "não precisa de remédio não, moça, vem aqui que te dou um abraço. Pronto, agora vai até a padaria e compra a melhor e maior bomba de chocolate que encontrar. Não esqueça de um telefonema para amigo querido. Mãe nessa hora não é boa porque vai fazer perguntas demais, e no final arremata com um 'eu nao disse?' quando você contar que uma de suas tantas ilusões foram frustadas. De novo. A parte boa é que você vai economizar R$ 24 e, tirando os R$ 3,50 da bomba, poderá ainda aplicar em uma boa tinta de cabelo. Que mulher quando quer mudar de vida é isso que faz, não é? O resto, guarde para um cachorro-quente de rua, que é coisa simples mas prazerosa. Tenha uma boa tarde. O próximo, por favor". Quantos desses eu encontrei? Nenhum, mas me fica a sensação de que uma moça quase agiu dessa forma, sendo impedida pelas câmeras de segurança repressoras e a moça do caixa, de batom vermelho, que guarda sob o teclado do computador uma lixa pois não suporta unha lascada.
Ela ia me falar coisas importantes. Iniciou com um suspiro, inclinou-se sobre o balcão de vidro, olhou para o lado da caixa, por dois segundos me olhou fundo nos olhos, numa tentativa de passar a mensagem. Era muita pressão, compreendi. Para compensar, pedi mais duas ou três aspirinas e agradeci pela atenção. Boto fé que na próxima, talvez, ela consiga, quem sabe o meu caso não fosse tão grave. Aquela menina que ali entra agora parece ter maior agonia, será que há então maior merecimento? Ora bolas, lá vai ela, inclina-se, devagar, olha para o balcão de vidro. Vai agora olhar para a menina? Agora, agora? Faz correr a portinha de vidro do balcão. Alcança um simples pó de arroz. E entrega para a menina. Merecedora coisa nenhuma, nem suspense existia naquela alma. Vejo que a atendente mostra certa decepção. A mensagem permanece com ela, e às vezes muda de sentido, como as frutas que só nascem nessa ou naquela estação. E caem de maduras, e não são colhidas, e nem ninguém sente seu sabor, e apodrecem, e viram adubo.
(Sobre frutas não saboreadas, lamenta especialmente pelo limão, que, cheio de variedades em uma mesma fruta, carrega sucos, doces, aromas, o verde mais bonito dentro de si. É verdade, o rapaz que a convidou duas ou três vezes para sair deveria já ter percebido seu gosto por limonada. Não o fez, o tolo)
Ela aguarda o momento exato, que tem de chegar junto com o cliente ideal, o que carrega nos olhos a expressão de desepero contido, mas ainda assim passível de explosão, ainda que para dentro. O que seria uma implosão, claro. Nesse dia, é para acontecer a mistura exata de empatia em via dupla, em que não será preciso mais do que os passos em direção à atendente para que, através do som dos sapatos, ela saiba que é a hora correta. Nada naquela pessoa, nem os poros do rosto nem a sujeira na gola da blusa, nada irá enconbrir o que deve ser dito, o que deve ser feito. Por essa expectativa e certeza, a atendente passa por cima da tristeza e perdoa a menina que não tem a riqueza de alma suficiente. Perdoa inclusive os passantes da calçada, que têm mais o que fazer do que buscar mensagens cifradas no rosto de uma moça de pele branca, branca.
O perdão, ela o concede de forma gratuita. Se pudesse, diria, a todas as pessoas, não só àquela afortunada que deve chegar um dia à frente do balcão e ler de maneira definitiva as razões de as coisas assim serem, mas todas as que passam pelo seu trabalho, e no ônibus, diria que elas estão perdoadas. Por não dar esmola, por gritar com os mais velhos, não esperar o sinal ficar verde e até por uma ou outra mentira, daquelas cabeludas. As mais amenas nem de perdão precisam, diria junto. Por outro lado, sabe que pousar a mão no ombro de desconhecidos pode soar estranho. E é tudo, mesmo, estranho, um conjunto de peças que não apresentam lógica, exceto se vistas sem a exigência de entendimento. Ela sabe disso e de muito mais. Só não é do tipo arrogante, e você não imaginaria que além de buscar medicamentos em prateleiras altas com a ajuda de uma escada, ela ainda chega em casa e arranca a página do calendário ainda antes de ser o dia seguinte. Porque antes de o dia começar, antes de o 'hoje', terminar, tem de se pensar que vai chegar o próximo. O outro, o seguinte também. Assim acabam os motivos para encher a noite de desesperança. Pinga duas gotinhas de limão sobre o travesseiro, não são nem onze horas, mas dorme.
Pode-se, com o calor, fingir pressão baixa e pedir que avaliem sua saúde arterial na farmácia. Os atendentes quase sempre são simpáticos, exceto quando têm vários clientes para satisfazer, como aquele senhor ali, de camisa cor de abóbora, ele tem três receitas diferentes e não lembra qual é a dosagem. E de 10 para 100 miligramas a diferença é só um zero a mais. Não? Não. Ah, os atendentes de farmácia. Assim como os de feira, é preciso certo traquejo na hora de pedir conselhos. Não me vá perguntar porque, sendo o mesmo remédio, o preço é diferente, em coisa de mais de R$ 15. Poucos saberão dizer, raros confessarão que o mais barato foi menos testado e apresenta prevalência de ataques epiléticos em 4% dos usuários. Mais raros ainda serão os que em você perceberão apenas uma crise de carência, dizendo: "não precisa de remédio não, moça, vem aqui que te dou um abraço. Pronto, agora vai até a padaria e compra a melhor e maior bomba de chocolate que encontrar. Não esqueça de um telefonema para amigo querido. Mãe nessa hora não é boa porque vai fazer perguntas demais, e no final arremata com um 'eu nao disse?' quando você contar que uma de suas tantas ilusões foram frustadas. De novo. A parte boa é que você vai economizar R$ 24 e, tirando os R$ 3,50 da bomba, poderá ainda aplicar em uma boa tinta de cabelo. Que mulher quando quer mudar de vida é isso que faz, não é? O resto, guarde para um cachorro-quente de rua, que é coisa simples mas prazerosa. Tenha uma boa tarde. O próximo, por favor". Quantos desses eu encontrei? Nenhum, mas me fica a sensação de que uma moça quase agiu dessa forma, sendo impedida pelas câmeras de segurança repressoras e a moça do caixa, de batom vermelho, que guarda sob o teclado do computador uma lixa pois não suporta unha lascada.
Ela ia me falar coisas importantes. Iniciou com um suspiro, inclinou-se sobre o balcão de vidro, olhou para o lado da caixa, por dois segundos me olhou fundo nos olhos, numa tentativa de passar a mensagem. Era muita pressão, compreendi. Para compensar, pedi mais duas ou três aspirinas e agradeci pela atenção. Boto fé que na próxima, talvez, ela consiga, quem sabe o meu caso não fosse tão grave. Aquela menina que ali entra agora parece ter maior agonia, será que há então maior merecimento? Ora bolas, lá vai ela, inclina-se, devagar, olha para o balcão de vidro. Vai agora olhar para a menina? Agora, agora? Faz correr a portinha de vidro do balcão. Alcança um simples pó de arroz. E entrega para a menina. Merecedora coisa nenhuma, nem suspense existia naquela alma. Vejo que a atendente mostra certa decepção. A mensagem permanece com ela, e às vezes muda de sentido, como as frutas que só nascem nessa ou naquela estação. E caem de maduras, e não são colhidas, e nem ninguém sente seu sabor, e apodrecem, e viram adubo.
(Sobre frutas não saboreadas, lamenta especialmente pelo limão, que, cheio de variedades em uma mesma fruta, carrega sucos, doces, aromas, o verde mais bonito dentro de si. É verdade, o rapaz que a convidou duas ou três vezes para sair deveria já ter percebido seu gosto por limonada. Não o fez, o tolo)
Ela aguarda o momento exato, que tem de chegar junto com o cliente ideal, o que carrega nos olhos a expressão de desepero contido, mas ainda assim passível de explosão, ainda que para dentro. O que seria uma implosão, claro. Nesse dia, é para acontecer a mistura exata de empatia em via dupla, em que não será preciso mais do que os passos em direção à atendente para que, através do som dos sapatos, ela saiba que é a hora correta. Nada naquela pessoa, nem os poros do rosto nem a sujeira na gola da blusa, nada irá enconbrir o que deve ser dito, o que deve ser feito. Por essa expectativa e certeza, a atendente passa por cima da tristeza e perdoa a menina que não tem a riqueza de alma suficiente. Perdoa inclusive os passantes da calçada, que têm mais o que fazer do que buscar mensagens cifradas no rosto de uma moça de pele branca, branca.
O perdão, ela o concede de forma gratuita. Se pudesse, diria, a todas as pessoas, não só àquela afortunada que deve chegar um dia à frente do balcão e ler de maneira definitiva as razões de as coisas assim serem, mas todas as que passam pelo seu trabalho, e no ônibus, diria que elas estão perdoadas. Por não dar esmola, por gritar com os mais velhos, não esperar o sinal ficar verde e até por uma ou outra mentira, daquelas cabeludas. As mais amenas nem de perdão precisam, diria junto. Por outro lado, sabe que pousar a mão no ombro de desconhecidos pode soar estranho. E é tudo, mesmo, estranho, um conjunto de peças que não apresentam lógica, exceto se vistas sem a exigência de entendimento. Ela sabe disso e de muito mais. Só não é do tipo arrogante, e você não imaginaria que além de buscar medicamentos em prateleiras altas com a ajuda de uma escada, ela ainda chega em casa e arranca a página do calendário ainda antes de ser o dia seguinte. Porque antes de o dia começar, antes de o 'hoje', terminar, tem de se pensar que vai chegar o próximo. O outro, o seguinte também. Assim acabam os motivos para encher a noite de desesperança. Pinga duas gotinhas de limão sobre o travesseiro, não são nem onze horas, mas dorme.
Tudo novo de novo
1, 2, 3, começou tudo outra vez.
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