quinta-feira, 4 de abril de 2013

O cachecol e a autosabotagem

  
Floco, posando pra foto com cara de "me deixe dormir!"


Eu terminei meu primeiro cachecol. É esse aí de cima, enrolado no meu cachorro que, quase às duas da manhã, teve de trabalhar como modelo. E o que há de importante nisso? É que minha vida acaba de mudar pra melhor: encerrei o ciclo da autosabotagem. 

Como? Você não consegue enxergar relação entre o cachecol e a autosabotagem? Bobinho, eu explico. 

Desde sempre eu tive dificuldade de fazer coisas pra mim. Meu foco sempre foi o outro. Realizar tarefas sempre esteve ligado a fazer algo por qualquer outra pessoa, seja em relacionamentos, trabalhos, família, amigos. Eu tenho uma facilidade incrível de resolver os problemas e desafios que estão fora de mim. Se você me disser que está com dificuldade em qualquer área prática da sua vida (e me pedir ajuda), eu vou fazer o diabo pra resolver sua situação. Eu bolo planos, falo com Deus e o mundo e... resolvo. Pode não ser hoje, mas resolvo. E não descanso até terminar.

Mas... pra fazer tudo isso, eu tiro totalmente o foco de mim.

E alguns fatos recentes me fizeram enxergar a gravidade disso na minha vida. Uma delas é ter encontrado uma família que precisava de ajuda, sem casa, sem chão, sem perspectiva na cidade. Eu não pensei duas vezes e criei estratégias pra ajudar, e, graças ao apoio de muita gente, deu tudo certo. Eles conseguiram casa, dinheiro pro aluguel, móveis, comida, tudo o que era necessário pra recomeçar a vida. Isso levou só uma semana e meia, o que me espantou bastante. Eu fiquei totalmente imersa nessa questão até conseguir resolvê-la (e foi lindo).

Na semana seguinte, fui pra cidade da minha família pra ajudar minha irmã com seus preparativos finais antes do nascimento da primeira sobrinha (viva a Manuela!!). E lá fiquei, bem feliz, resolvendo coisas aqui e ali (e foi lindo, também). 

Pois bem. Voltei pra minha cidade na sexta-feira de noite, porque no domingo tinha um concurso público pra fazer. Durante o sábado todo fiz coisas aleatórias: de aula de inglês à visita a uma feira de empreendedorismo. Às onze horas da noite de sábado me lembrei de um detalhe: eu devia ter imprimido o comprovante de inscrição para aprensentar na prova, que era às oito da manhã do dia seguinte. Céus. Onde, agora? E mais: precisava de xerox da identidade e uma foto 3x4 (que eu devia ter em casa, mas não sabia onde). 

Quer dizer: criatura, você lembra de fazer TUDO o que se propõe por qualquer pessoa, durante semanas. Menos por... você mesma? E diante de um problema que era só meu eu simplesmente travei. Não sabia absolutamente o que fazer. Não conseguia bolar um plano, só me culpar por tamanha besteira. 

O que me intrigou é que eu tinha essas informações na cabeça, havia lido o edital e sabia o que precisava imprimir e apresentar. Mas isso não me apareceu na memória a tempo de eu poder realizar. (Na psicanálise isso é chamado de ato falho e, em geral, revela algo que eu não estou querendo admitir ou enxergar.) 

Era meia noite e eu só sabia me lamentar por tudo, depois de tentar pequenas coisas que não deram certo. Pra minha alegria (e pra mostrar que, sim, é possível superar os meus problemas), meu namorado apontou algumas saídas e, num ato heróico, salvou a minha participação no concurso. Eu já havia decretado o fim: não dá, não dá, pronto, não faço essa merda. E provavelmente não faria se ele não tivesse me acalmado e mostrado uma luz no fim do túnel e tivesse tomado a frente da situação. Deu certo: fui lá e fiz a prova. Claro que não fui super bem, afinal, mal tinha estudado. E por que, mesmo? Ah, porque eu tinha dedicado todas as minhas horas das últimas semanas a fazer outras coisas que não cuidar de mim mesma.

Esse foi o episódio 1. O segundo aconteceu essa semana.

Entrevista de emprego. Graças a uma amiga, consegui uma entrevista de emprego num lugar muito, muito bacana. Pra evitar problemas como o anterior, me preparei pra entrevista. Pesquisei sobre a empresa, li, reli, anotei. Calculei quanto tempo precisaria pra chegar até lá, de ônibus, acordei na hora certa, me arrumei e... saí atrasada. Quando cheguei no ponto de ônibus, dois deles acabavam de seguir rumo a outos pontos onde as pessoas chegam no horário certo porque não se autossabotam. Faltavam vinte minutos pra entrevista e eu ali, esperando. Ah, sem dinheiro pra táxi, dinheiro que gastei com coisas aleatórias e provavelmente bem menos importantes do que isso. 

Dez minutos pra entrevista. O ônibus chega, mas, claro, vou me atrasar. Entrei no lugar com quinze minutos de atraso e, claro, me culpando e esperando qualquer tipo de punição, algo como "então, Gislaine, você costuma fazer pouco caso de seus compromissos, hein?". 

Respirei e esperei a moça que iria me entrevistar. O ambiente era ótimo, a oportunidade ótima, as moças da entrevista, super receptivas. E o que eu faço? Falo mal de mim mesma. Nas perguntas sobre minhas características, desando a falar sobre como minha curva de aprendizagem é rápida e como preciso me manter motivada pra continuar a realizar tarefas.

POR QUÊ, CRIATURA?

Ainda não sabia, direito. E falei, falei, e, vendo a cara das moças torcendo pra que eu parasse de falar mal de mim, tentei ir pra outro lado, mas no fim a minha sensação foi de que eu estava dizendo: ei, sou ótima, mas não mereço esse trabalho.

E vim pra casa me perguntando: que que há, garota? Não era, claro, a primeira vez que eu fazia isso. Em situações onde preciso me auto afirmar, escorrego na casca de banana das histórias em quadrinhos e me torno uma piada triste. 

Então comecei a pensar sobre todas as vezes em que me boicotei, seja saindo de um emprego por acreditar que não daria conta (descobririam que nem sou tanta coisa assim?) ou nas situações em que dei o melhor de mim pra realizar coisas por outras pessoas. E fui perguntar pro Google. Vamos lá: autoboicote, auto-estima, perda de foco: por quê eu faço isso, internet?? Caí num universo de páginas que descreviam com detalhes o tipo de comportamento que adotei praticamente a vida toda: não realizar nada por mim por medo de não conseguir o resultado esperado. Parar no meio do caminho pra poupar esforço, com a desculpa de que, se tivesse ido até o fim, teria sido um sucesso. Problema grave de auto estima, provavelmente baseado em crenças limitantes que vêm da família e da infância, distorção de imagem própria, entre outras coisas que fizeram todo o sentido. 

Tá, tá, eu sei que a internet não resolve os problemas psicológicos do mundo, mas eu tive o insight de que precisava. Jamais tinha me dedicado à mim mesma com o mesmo afinco que tenho por outras pessoas ou situações alheias. Quando ajo, em geral é pra atender, responder, ajudar, entregar, etc.. Daí que quando chego num ponto ou projeto que tem a ver com o meu crescimento, sem co-participações, eu travo e perco a vontade. É como se eu só existisse pelo outro, como se a minha imagem no espelho não tivesse forma, a não ser pelo reflexo da minha relação com o outro. E, por esse motivo, eu mal conheço minhas próprias vontades e intenções.

E... BAM! Não poderia ser o som de um sino, claro, uma percepção tão forte assim. Foi mais uma pancada, uma tora de madeira caindo no meio do meu apartamento de 50 metros.  

Depois disso, comecei a pesquisar métodos, técnicas e dicas pra focar nas minhas necessidades, intenções, planos. Achei um bilhão de conselhos muito valiosos que até divido com quem tiver interesse no assunto. 

E, boas novas! Desde então, consegui, finalmente, me dedicar a estudar (pra um novo concurso), tenho me concentrado, não tenho problemas em sair da cama pra fazer isso. Tenho conseguido organizar minha casa (uau!) sem ficar enrolando até não poder mais. E quando leio textos que apontam as dificuldades de se fazer isso ou aquilo que eu quero fazer (por exemplo, quais as dificuldades de se estudar em casa), enxergo como algo normal, ou mesmo um desafio, e não mais como uma predestinação ao meu fracasso, como antes.

E aí, depois disso tudo, hoje de noite sentei para descansar. Liguei a tv e peguei o cachecol que, há um ano, começo e paro. Sim, um ano!! Enquanto assistia, fui fazendo e fazendo e não quis mais parar, até chegar ao fim. E foi uma das melhores sensações que já tive: concluir algo por mim, porque eu queria, porque eu tinha o objetivo de chegar até o final. E cheguei. 

Por isso o cachecol é o símbolo do fim da minha autosabotagem. E por isso eu não duvido mais de mim mesma. Ao contrário, tenho acreditado muito que todas as ações que eu quiser (realmente quiser) vou conseguir realizar até o fim. 

E essa é a minha história.

Meu nome é Gislaine, obrigada por me ouvirem. 

=))

P.S.: Não faço ideia se os termos autosabotagem, auto-estima e auto boicote estão escritos corretamente. Mas isso, nesse momento, não muda minha vida.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Os outros


Depois dos últimos anos imersa na realidade de paixões platônicas e pseudoamores, percebeu algo que tinha chance de mudar a rota da sua vida: tratava-se apenas de transferência. A sua alegria de viver era representada pelo outro, só existia com o outro e por ele, estava na paixão que sentia, na vontade de estar junto, nas músicas e livros dos quais aprendera a gostar, que a lembravam de momentos.

Descobrira: esses momentos (e qualquer outro) enquanto aconteciam, não pareciam ter importância alguma. Só se tornavam importantes - vitais! - ao passarem de presente para passado.Não ter como voltar tornava esses instantes, que poderiam ter sido banais, no mais importante: já não os tinha. O desejo pelo que não se pode alcançar.

Soubera: por não viver o agora na hora em que ele acontecia, acabava com grandes perdas (algumas irreparáveis) lá no futuro. Sentia-se órfã da própria vida, como se houvessem subtraído dela seus melhores dias. Alguém deve ter culpa, oras. Mas... quem?

Tratava de passar logo com seu tratorzinho por cima do hoje, em especial quando o hoje machucava demais. Sem dor, sem dor, não olhe e siga adiante. Mas esse “adiante” até onde fora, percebeu, era longe demais. E tudo o que ficou lá atrás, a dez quadras, a cem quilômetros, dez anos, talvez pudesse realmente ser importante. Talvez não, é verdade - talvez não. Bem possível que não: suas impressões estavam sempre contagiadas por emoções incertas.

E mais (sempre tinha mais): como sua alegria de viver era representada pelos outros, não havia se dedicado nunca a descobrir o que de fato a fazia feliz. O que era ela, afinal, sem essas pessoas? Quais eram suas referências? Do que gostava e o que odiava por si mesma?

Naquele ano, foi atrás de duas pessoas do passado e as duas lhe disseram sonoros “não!”. Não, você não pertence mais ao meu presente. Não, não quero mais conversar com você. Não, já tenho o que preciso na minha vida. Não, você não é insubstituível, baby. E o último, tão sonoro, causou um silêncio grande dentro dela. Mas ecoou durante vários dias antes de deixar tudo quieto.

E depois do silêncio, entendeu: então é isso mesmo... Enquanto cultivava suas estatuazinhas de metal no jardim, cada uma representando uma pessoa que para ela havia sido importante, os outros iam em frente sem estatuazinha nem jardim, sem lembrança ou gratidão. A maioria, até, com raiva. É verdade que – percebeu – talvez tenham sofrido, mas depois exorcizaram suas desgraças e... seguiram em frente. Analisou que cada um tinha um jeito de lidar com sua dor. (Mas achava tão bonito o seu próprio, pois conseguia manter uma tela pintada com o que havia de melhor nas pessoas e nos dias que com elas vivera. E a tela poderia ser pendurada na parede de casa, como uma sequência de cores que dão o tom de uma vida em que se conhece pessoas a fundo.)

Para conseguir seguir em frente, ela guardava somente o que havia de bom em tudo e todos. Esquecia o resto. Os outros, ao que parece, faziam o contrário: guardando lembranças ruins pra, quando necessário, dizer, quem sabe a si mesmos: ela é uma pessoa ruim, só ruim, só ruim.

Ela não era. Soube, depois. Que bom. 

Faltava, agora, descolar as referências alheias da alma, se despir toda pra ver no espelho o corpo, a sombra e o rosto que eram dela, tão dela. E de mais ninguém.

 (Texto de 2011)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

As definições


 Não as tenho. Admiro quem sabe o que quer, onde quer chegar, o que esperar do futuro, o que fazer amanhã cedo. Eu não sei. Mesmo quando tinha uma programação diária: acordar, pegar ônibus, trabalhar, almoçar, trabalhar, ir para casa, descansar. Isso sempre me pareceu meio automático demais. Fazia por que... é o que se faz por aí, certo?

A verdade é que sempre senti que a vida tem um propósito bem maior do que isso: casa, trabalho, contas, logística comercial e humana. Eu não tenho essas definições claras em minha mente. Mais que isso: não são parte do meu coração. Não sei exatamente o que quero fazer.

Quando pequena, sempre que me perguntavam o que queria ser, respondia: jornalista. Não sei bem de onde veio a certeza, mas a alimentei desde então, dei a ela conhecimentos e condições de crescer e se tornar uma profissão para mim. Mas "jornalista" é apenas uma função, um trabalho. Há tanto mais a se fazer e se desejar ser.

Mas eu fico parada em um cruzamento cheio de interseções: o que deveria querer, o que acho que sou, o que sinto, o que poderia ser...

O que sinto? Que a vida é sensacional demais pra eu ficar em um escritório lidando com papéis e burocracias. Que há pessoas e sensações únicas que merecem mais dedicação. Que o espírito é maior do que qualquer vocação profissional. Que estou parada como um carro que tem combustível e não sabe para onder ir.

Eu sei o que me comove. Mas ainda me falta o gatilho que me ajude a correr, como uma bala, para o que quero. E então?

Você, você sabe o que quer? Bem, talvez não precisemos de definições. Só não quero passar a vida me enganando e trabalhando para favorecer interesses que não estão de acordo com o que sinto. O potencial, é possível que o desperdicemos por uma vida toda. Devíamos aprender, já na escola, como seguir o coração, como transformar em ação o sentimento. Eu confesso: não sei. 

Enquanto isso, faço uma coisa aqui e outra ali. Um pouco sem foco, um pouco sem objetivo. Um pouco de tudo. 

Ah, essa música me comove.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Minha honey baby


Sim, eu estou tão cansada. Mas não é disso que vou falar. Ou é? Poderia. Mas não, não é. Não é? É, não é.

Hum.

Identidade. Não a de papel, não a de plástico, com seu nome e assinatura. A que você carrega aí dentro e te ajuda a definir quem é. E quem não é. Sabia que às vezes você acaba perdendo isso aí?

Sim, você perde. E pode ser por tantos e tão inexplicáveis motivos...

Você perde quando deixa de fazer o que gosta. De ouvir suas músicas, ver seus filmes, ir aos seus lugares preferidos. E, opa, do que eu gostava, mesmo? E também pode deixar de fazer o que gosta por muitos e muitos motivos. Dedicação excessiva ao trabalho ou a qualquer outra coisa. Cansaço. Novos amigos. Problemas na vida. Casamentos. Comparações. Desilusões. É, tem uma pá de coisas que podem te fazer abandonar o que já foi – e o que gostava de ser.

E olhe, ninguém te pede, te manda: ei, deixe de ser quem é. Passe aqui pra esse lado, veja essas outras coisas, outros jeitos, outras visões, que tão mais legais que são. Não. É natural. Quando vê, já está lá do outro lado, em outro continente. E tem tantas milhas em um oceano tão grande que você tem de percorrer pra voltar. Voltar a ser quem era, quem sempre gostou de ser.

Lá do outro lado tem um corpo que espera a alma, a alma que está andando pra todo lado e, distraída, assobiava esfregando os pés na areia branca. E aí a alma se dá conta que só assobiar e andar pela areia, bem, não é a praia dela. A praia dela é mais consistente. A areia talvez não seja tão branca, mas é mais firme. O céu, nem tão azul, mas o tempo é mais estável. E tem um lindo pôr-do-sol ao som de Gal Costa.

Perder a identidade pode acontecer com qualquer um. Uma comparação com outra pessoa e pronto. Quem é você, garota? Quem você era, mesmo?

A identidade está tão dentro de pequenas coisas... Abrir mão de hábitos ou atitudes, ninguém te pede isso. Você faz porque quer. Porque não conseguiu evitar. Porque mudou o desenho do quebra-cabeça, mudou as cores, e de repente não lembrou mais como era o outro cenário. Era montanha? Ou era um parque? Também, cinco mil peças...

Uau.





quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

"2013, seu ano de merda" ou "Em última análise, é preciso escrever para não adoecer"




Em última análise, é preciso escrever para não adoecer.

2013 tem se mostrado um ano de merda. E eu começo um texto com um número mesmo sabendo que é errado. Talvez porque 2012 foi um período incrível pra mim, talvez porque eu sempre tenha sido supersticiosa, talvez porque eu tenha me iludido tremendamente nos últimos doze meses, 2013 se transformou em um prenúncio de coisas ruins.

Os acontecimentos, pequenos ou grandes, estão sendo ruins. As idéias, os encontros, as expectativas, os dias. E a falta de vontade, os problemas de saúde, as mancadas, o stress, a negatividade. Tudo bem excessivo.

E tudo isso é só janeiro. Então eu fico me esforçando pra me convencer de que é só uma impressão. Que é uma espécie de TPM fora de época, de inferno astral pós final de mundo que não houve.

Mas não me convenço.

Sabe aquela alegria e positividade e empolgação e ânimo pra viver o que a vida apresentar, de dar a cara a tapa, enfrentar, mudar, ir em frente? Eu tinha. Você que lê - e os que não lêem também, todos certamente concordam. Não tenho mais.

Eu tenho: medo, vulnerabilidade, medo, stress, insegurança, irritabilidade, vontade de gritar e sair correndo em uma estrada que não tem fim, em um tempo que não passa, medo.

O lance da mudança, por exemplo. Sempre fui a favor. Eu mudo. De roupa de cama, ideia, vontade, cidade, emprego, namorado, endereço, cidade, passatempo. Eu era assim. Agora tenho medo. Não sei se consigo mais lidar com tantas mudanças, essas que eu mesma crio, essas que imponho a mim mesma. De repente eu penso: ah é? Eu não preciso disso. Posso mudar. E, depois: ui, será mesmo que posso? Será que consigo? Será que ainda consigo?

E fico cansada. A canseira de uma vida toda, sabe? E eu não tenho nem trinta anos.

Na primeira semana do ano fiquei com a nítida impressão de que 2012 foi um ano ótimo porque foi cheio de ilusões, fantasias, coisas que eu tanto precisava há muito tempo. Que talvez seja um ano que nunca mais se repita. E que em 2013 as coisas reais estão batendo à minha porta: ei, não era bem assim. Ei, olhe bem, olhe direito, enxergue o que você não queria enxergar. Está tudo aí, você é que deixou na prateleira menos visível.

E o fato de ser um livro aberto também não ajuda muito. Fica evidente quando estou bem, mal, irritada, decepcionada, com vontade de mandar tomar no cú. E quando estou apaixonada, feliz, nas nuvens. É tudo muito transparente e eu não consigo evitar. Perco pontos em relação a quem consegue se manter neutro, frio, no mesmo lugar. Perco pontos com essa disponibilidade de contar o que sinto, o que me acontece. Sente-se ao meu lado na praça e converse comigo dez minutos. Eu te conto o que aconteceu desde que acordei, como foi levar o Floco pra passear e o que vi na esquina. Vire meu amigo no trabalho. Eu conto o que me aflige. Se me convencer que é amigo, conto até quanto ganho. Mostre preocupação comigo e te falo da última vez que fui parar num hospital.

Eu falo. Como meu avô, que na fila do banco dizia que ia tirar o salário do filho dependente, que morava no bairro tal, que tinha a esposa doente, que era evangélico. Meu avô falava e confiava em todos, e tanto, a ponto de ser passado pra trás muitas vezes. Por desconhecidos, por gente mal intencionada e, claro, por parentes.

Na última entrevista de emprego que fiz, na hora de colocar três defeitos meus, céus, que dificuldade. Depois de alguns minutos pensando, o terceiro ficou bem óbvio: ingenuidade.

Mas a gente só acredita mesmo é no que quer acreditar.

E aí, bem, eu acabei parando de escrever. E acho que escrever é fundamental, essencial, vital. Sempre me fez um bem e acaba fazendo bem pra quem me lê, já que me gosta, senão não leria. E eu parei. É sempre um sinal de que algo está desequilibrado.

Minha irmã mais velha diz sempre que quando meu guarda-roupa está arrumado, estou apaixonada. Eu diria que quando paro de escrever, tem algo errado. Tem algo errado, algo errado, algo errado.

Bem, em épocas de redes sociais, as coisas ficam presas ali, a gente achando que ta falando pro mundo e tá mesmo falando pra três ou quatro que vão ler agora e esquecer dali a dois minutos. É uma competição desenfreada com fotos e frases e animais bonitinhos e indiretas pros amigos que, olha, não agüento. E não agüento com trema, mesmo. 

E tudo vai embora na linha do tempo. Está lá, mas lá em algum lugar que ninguém sabe.

O blog acaba sendo um ponto fixo, um lugar onde estou. Onde sou, seja lá como esteja, sempre sou. Eu estou aqui. Eu sou isso que está aqui. Aliás, você deveria tentar, também.

Mas é isso. Em última análise, escrevo para não adoecer. A frase original é do Freud: é preciso amar para não adoecer. Amar, amar, amar, bem, todos nascem prontos pra isso. Não quero amar para não adoecer. Quero escrever. Hoje, amanhã, depois.

Eu me expresso bem, porra. É só parar na frente de um espaço em branco. É isso. 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Normalidade



Será que ser normal é isso? Se preocupar com a conta de luz que está atrasada e o horário do ônibus pra chegar ao emprego e se a carne da geladeira já passou da validade?

Normalizei-me.

Fujam.

Fujam todos. Há um mundo maior fora da normalização. Há um mundo bem mais interessante e caleidoscópico.

Você começa querendo chegar logo aos 18 e termina querendo voltar aos 13. Mas aí já se passaram anos, holerites, contratos, certidões, diplomas, panos de prato embrulhados para presente e, no auge da decadência, você comparando preço de óleo refinado no mercado.

Fujam.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Detalhes



Vi uma flor no meio da calçada.

Mas a mulher não viu.

Pisou.

O motorista do carro não viu a flor.

Nem a mulher, nem a calçada.

Matou.


terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Letra que toca



Janela
Nina Becker
As coisas passam sem se aproximar
Do caminho que se olha dessa janela
As coisas passam sem saber passar,
Passam as curvas, passam as chuvas que eu vou lembrar
Passam sem se aproximar,
Paradas, paradas,
Passam sem olhar pra cá,
Paradas, paradas
Para voltar pra casa e descansar
Para poder chegar de algum lugar
Para tentar chegar de madrugada
Para poder perder a mão da estrada
Passam sem se aproximar
Paradas, paradas
Passam sem olhar pra trás
Paradas, paradas
Para voltar pra casa e descansar
Para poder chegar de algum lugar
Para tentar chegar de madrugada
Para poder perder a mão da estrada

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Os vultos e a plantinha




..e todos os vultos acabam sumindo, menos aqueles que a gente faz questão que fiquem. Ora, a gente refaz tudo no começo do ano, não refaz? Me traz aquela xícara de água que vou botar no vasinho ali, faz tempo que não águo. Só boto água no começo do dia, agora são mais de três horas. Mas coitada da planta, não tem culpa da minha mania. Eu e as minhas manias. Cadê aquela vela de estrela que tava aqui?

Não, eu não acho que todo mundo perde o sonho, com a vida. Porque, como eu sempre disse pro Abel, desistir do sonho é parar de alimentar a alma. E a minha ainda tem fome, nesses tempos tão ruins pra gente que ainda resolve sonhar. Talvez eu tenha jogado fora a vela. Acho que tinha cheiro de... morango?

Velas com cheiro são boas. Mas esses dias, vi no mercado sacos de lixo com cheiro de frutas. Era... limão para metais, uva para papel, laranja para vidros e... como era mesmo? Não sei, li por alto.

E apareceu um moço no portão dizendo: "tem alguma coisa pra dar?" e eu ia estender a mão e oferecer um abraço, mas duvido que ele aceitasse. A gente oferece aquilo que tem, então eu lembrei de pegar um quilo de arroz no armário, mas o pacote já tava aberto. Foi aí que vi o tanto de gelatina acumulado na despensa. E nem era tempo de festa junina, quando as crianças pedem "prenda" nas casas e a coisa mais fácil de dar é gelatina... Mas entreguei pro rapaz algumas moedas guardadas no fundo da bolsa e algumas roupas numa sacola, ele sorrindo e dizendo "eu levo pra minha irmã" e saindo, andando até o fim da quadra e virando a esquina.

Mas a bolsa, sabe, não tem mais tantas moedas quanto antes. É que as padarias têm colocado aviso dizendo "agradecemos aos clientes que pagarem com moedas"... Sim, eu acho que a riqueza do país tá nas moedinhas, todas guardadas nas gavetas das casas. Eu mesma não me importo muito com elas não. A riqueza, as moedas. Nem com as gavetas.

Foi semana passada que você viu uma criança te espiando no vestiário da loja? Eu acho que você fez bem em reclamar com a mãe do menino, mesmo ela tendo gritado pra todo mundo que você era uma sem-vergonha. Eu acho que as pessoas tão muito sem criatividade. Eu prefiro os dentes-de-leão. É. Do que as marias-sem-vergonha. Cê pega água pra eu colocar na plantinha? Eu só rego ela de manhã, mas ela não tem culpa das minhas manias. Hoje ainda não agüei ela.

Falando nisso, vieram aqui em casa perguntar se eu queria colaborar com o asfalto na minha rua. A mocinha, toda suada, segurando a tabuletinha marrom, coitada, insistiu e disse que se um dos moradores não aceitasse pagar tantos reais, em até sete vezes, até sete vezes, ela disse, a rua não podia ser asfaltada. Você veja, eles vêm pressionar, colocando a culpa na gente! Ora, minha filha, eu falei, eu já pago IPTU, já pago a taxa do lixo, já pago pra prefeitura me deixar morar nesse pedaço de casa depois que o Abel morreu. Aí você vem e me diz que se eu não pagar os vizinhos vão ficar sem asfalto? Foi o prefeito que prometeu asfaltar quinhentos quilômetros de ruas? Então manda os vizinhos cobrarem dele, que eu não prometi nada a ninguém. Ela fez cara de brava e disse "então, boa tarde pra senhora". Eu ia oferecer um copo de água, ela toda suada no pescoço, cê tinha que ver. Achei ela elegante, não perdeu a pose nem quando o gato preto da Joana pegou na perna dela, que nem faz com todo mundo.

Eu ia falar pra ela, mas ela não deixou. Que eu ainda tenho gosto de ver passar aqueles caminhões pesados aqui na rua, que eles levantam pó e logo vem a vizinha da frente varrer a varanda e reclamar que não deviam passar caminhões daquele tamanho no bairro. Ela varre, varre, entra em casa e chacoalha todos os lençóis e arruma de volta na cama. Tem vezes que ela tão fica irritada que recolhe a roupa do varal, acho que coloca na máquina de novo, porque dali a pouco corre estender de novo, tudo pingando...

Aquela sua colega ainda tá procurando gente pra trabalhar na casa dela? A que trabalhava pra Leonilda tá sem serviço e grávida, mas ainda de uns três meses. Já tem dois em casa e eu digo pra ela se cuidar, mas não adianta. Ela aceita meio período, por dia, por mês, é bem esforçada. Diz que o marido quebrou a cabeça na porta, foi quando a polícia entrou de supetão na casa procurando droga, mas não tinha nada não e mesmo assim reviraram tudo, aí foram encontrar escondido no Fusca da mulher que mora nos fundos, e na foto do jornal saiu o carro, a droga, as casas da vizinhança e o marido dela na frente da casa, com a cabeça sangrando. A manchete dizia: "Polícia prende cinqüenta quilos de cocaína na favela". Daí o marido foi procurar emprego no mercado dali de perto e o gerente perguntou "não foi você que saiu no jornal esses dias?", e olharam pra ele de cima a baixo. Aí até explicar que não tinha nada a ver com o trem... Eu sei é que tenho medo que algum dia um grande mal-entendido estrague a minha vida. Se bem que, estragar o quê, né? Eu nem saio mais de casa, só daqui prali, nem a sua tia não vem mais me buscar pra ir na casa dela.

Mas não sei não, se eu encontrasse uns cem mil na rua, acho que ficava pra mim. Quem é que devolve, hoje em dia? O senhorzinho que devolveu o dinheiro perdido no táxi dele foi chamado de idiota pelo pessoal do ponto, tudo amigo dele. Mas que belos amigos, né? Eu até podia procurar o dono, na verdade, mas daquele jeito, meio por cima, torcendo pra não encontrar. Teve um dia que eu achei vinte reais no chão, mas veio uma moça com outra menina e, bem rapidinho, colocaram o pé em cima e já abaixaram pra pegar. Saíram rindo, as duas. Ah, deixa pra lá...

Eu fico assustada sabe com o quê? Com aquela vontade que o mal aconteça com quem foi ruim pra gente. Quando eu era mais nova eu guardei uma mágoa de uma amiga da tua tia, eu fiquei meses pensando "quem ela pensa que é pra falar assim comigo?" Passou uns dias e eu soube que ela tinha sofrido um acidente de carro, nada muito grave, e depois foi demitida, ainda por cima. Aí aquela vozinha dentro da gente me dizia: "viu, viu? bem feito, ela mereceu!". Eu acho que fiquei sem me olhar no espelho uns dias, viu. Acho que eu tinha medo de a imagem me olhar com cara feia. Mas volta e meia acontece isso. Quando eu percebo que fiz de novo, abaixo a cabeça e pego meu espanador. Eu espano, espano os móveis da sala e só levanto os olhos pra ver a rua depois que a vergonha passa.

Sei lá, eu penso que quando as pessoas vão embora, ficam só os vultos. Assim como tem gente que pensa que depois da morte os espíritos ficam vagando aqui por perto. O vulto de uma pessoa nunca abandona quem ela acompanhou a vida toda. Você deve ser o vulto de muita gente, sabia? Não fala com seu pai há quanto tempo mesmo? Acha que ele não tem remorso disso? Acaba que ele vai virar um vulto pra você, cada dia maior, e no dia que disserem "ah, o PT já foi um bom partido", você vai derramar umas lágrimas sem querer, vai ver o vulto crescer aí perto de você. Aí vai pedir licença, vai no banheiro e vai ficar triste e vai ter que tomar remédio pra depressão. E tudo por quê? Por que você deixou ele virar um fantasma na sua vida, sem precisar. Eu tenho a impressão que alguns fantasmas a gente não consegue evitar, mas os que a gente pode, eu acho bom é fazer isso logo, consertas as coisas, sabe? Uma hora ou outra a gente entende as coisas que passaram. E aí todos os vultos vão embora, menos aqueles que a gente faz questão que fiquem, tem uns que a gente não se livra mesmo.

Aquelas marcas, eu já te disse, as marcas de quem viveu aqui, aqui nessa sala, ficam guardadas na parede. E quando, um dia, tocar aquela música que a pessoa gosta, elas, as marcas, vão tomar conta da sala. Que nem quando as valsas tocavam nos bailes que a gente ia, antigamente. E a sala pode até ser outra, pode ter outras coisas, ser pintada de roxo, pode até não ter aquele vaso de planta, pode ter virado outra coisa. Pode até não ter mais nada mesmo, igual eu falei. Mas os vultos ficam. Eles ficam sempre. E a gente leva pra outro lugar. Eles ficam presos nas estatuazinhas, aquelas que a gente deixa ali em cima da estante. Ficam nos copos, ficam no acolchoado. E sabe o que eu acho? Que a gente é que gosta que eles continuem ali. Pra ter com quem tomar café de vez em quando. Cê não acha, não, Izabel? Izabel? Faz um favor? Pega aquela caneca ali e me traz uma água da torneira. Acho que faz dias que eu não rego a plantinha. Coitada.

domingo, 25 de novembro de 2012

O estranho da vida



Pra mim 2012 já havia acabado. Tantas novas coisas aconteceram comigo e com pessoas que estão comigo que, bem, eu já estava com essa sensação de: uau, quantas novidades.

Ok, eu sempre tenho essa sensação de que o ano já passou, que estou bem lá na frente e os dias do calendário são datas passadas. Ainda que seja a data de hoje. É uma estranha sensação. Eu sempre correndo lá, tão lá na frente...

Em agosto comecei a sentir isso: um ciclo acabando. Claro, na minha cabeça. Por que as coisas continuam acontecendo num ritmo impressionante.

No fim de 2011 eu ouvia aquelas previsões de como 2012 seria um ano de mudanças. Chamavam de "o ano do dragão". O ano em que, se você se dedicar, terá muitos retornos. O ano em que as coisas podem mudar de maneira radical. O ano em que a energia vai estar voltada para grandes acontecimentos.

Bem, eu não sei como foi este ano pra você. Mas pra mim tudo isso aconteceu. E começou lá em janeiro. E estamos em novembro e ainda sinto que estou vendo a terra se movimentar debaixo dos meus pés enquanto eu corro de montanha em montanha.

E nos últimos dias as coisas se tornaram um pouco estranhas. Acho que agora eu precisava de umas pequenas férias. Pra me centrar novamente. Eu, que sempre corro, quero parar e respirar. Quero ter aquela sensação de quando se dorme e se acorda sem saber exatamente quem é e o que houve, que dia e que horas são, onde se está. Tenho dessas noites em que durmo tão profundo que esqueço de tudo. E é ótimo.

E muitas das coisas que me aconteceram são simplesmente incríveis e ótimas. Aliás, o saldo positivo desse ano é muito, muito grande. O tanto que eu cresci e entendi a vida foi, talvez, proporcional ao tempo que eu passei adormecida, letárgica, como aconteceu durante alguns anos.

Foi como se me colocassem numa escada e dissessem: vai. E apagassem todos os degraus debaixo daquele onde eu estava. Eu subi.

Meu pai teve câncer e se recuperou, eu conheci alguém muito especial, consegui freelar pra Abril, arranjei um emprego bacana, me apaixonei e comecei um namoro, fiz novos amigos verdadeiros, meu pai se casou e entrou para uma bela família, me aproximei mais de uma amiga que se tornou minha nova irmã, comecei a morar sozinha, fui convidada pra outro emprego bacana e... muitas outras coisas que aconteceram com amigos e parentes e pessoas queridas que, de alguma forma, me afetou.

E eu, que quero parecer forte e segura, acabei ficando bem vulnerável nos últimos dias. E acabei descobrindo que tenho uma distorção de imagem muito grande. Que aparento ser muito melhor do que acredito ser. E isso é mais uma das descobertas deste ano cheio de acontecimentos.

Lembro de ficar repetindo o refrão da música da Marina, "eu espero acontecimentos, mas, quando anoitece é festa no outro apartamento". Mas em 2012 as coisas realmente aconteceram. E cá estou eu tentando montar um cenário com as pecinhas novas que ganhei.

Estou bem cansada, mas grata. Ok, não terminei meu livro - não sei o que fazer com a personagem cínica que criei. Como muitas vezes não sei o que fazer comigo. Talvez a personagem também deva acreditar no ano do Dragão, acreditar que as mudanças que ela tanto deseja podem surgir, dia após dia, mesmo sem ela se dar conta. E talvez, lá na frente, ela olhe pra trás e diga: uau.


domingo, 18 de novembro de 2012

A loja de livros, o amigo e o bolo




Era a segunda vez em dois dias que levaria um bolo. Sentou-se no banquinho da loja de livros e pôs-se a ler os títulos, nas lombadas, com letras viradas em 90 graus. Lia e não pensava sobre. Outra vez havia se movido, com coração acelerado, expectativa, cabelos penteados e corpo com perfume doce. Estar ali era provar novamente que com poucas palavras, até com pouca expressão da parte dele, ela iria até o fim do mundo pelo amigo. Bastava um pedido. (Machado de Assim, Lima Barreto, Ana Miranda, Heloísa Seixas). Começa a ler uma história. O telefone celular toca. Ainda no banquinho, treme.

Ela: - Fala...
Ele: - Então. Eu tava chegando aí quando vi a Lívia atravessando a rua.
Silêncio: ...
Ela: - Pegou os cds com ela, pelo menos?
Ele: - Peguei. Mas tô indo embora. Não tenho condições de ficar mais aqui na cidade, não mesmo. Mas obrigada. Tchau.

O tamanho do bolo só poderia ser comparado com aquele de trocentos metros que é feito no aniversário da cidade de São Paulo. A pressão percorre o corpo, da cabeça aos pés. Ela esperava que ele fosse encontrá-la ali. Estava ajudando depois do fim de um namoro do moço. E haviam marcado de ela, a amiga fiel, pegar coisas dele que estavam com a ex-namorada. E ela, a amiga, estava numa loja de livros usados, esperando. Então ele liga e desmarca. Liga e desmarca porque viu a ex-namorada no meio da rua e não soube lidar.

Bem, ela continuaria por ali, a vontade de andar também havia ido embora. Condenou-se pela expectativa, animação, as quadras que andou de maneira leve e feliz. Lamentou pela meia hora que passou embrulhada em uma toalha após o banho, os cuidados com as mãos, as unhas, a sensação de arrumar-se para.

Quis morar, de repente, no prédio ao lado da loja de livros. Bastaria subir dois lances de escada e o chão gelado a receberia. De braços abertos, rosto colado no azulejo, o mundo seria outro depois de uma decepção. Por agora, suava na nuca. Mudança de planos, ausência de idéias. Por algum tempo esperou que uma borboleta batesse as asas no Sudão para que o caminho dele se modificasse por aqui e ele aparecesse, sem mágoas. Das pessoas que passavam em frente à porta de vidro, nenhuma era o moço. Sustentava pequena alegria com passos se aproximando, o olhar no chão. (Melhor não olhar, deve ser, deve ser. Eram sempre outros.)

E porque se abalara de longe prali? Antes, de noite, o diálogo pela internet propunha um encontro. Não era ela o foco da situação, ele não iria até lá para vê-la. Ela, sempre coadjuvante, nunca protagonista. Mas topava porque estariam juntos por alguns momentos. Haveria o encontro. Gostava de estar com ele.

- Faz um favor para mim? Não quero ver ela, não depois de tudo. Vai até o apartamento e pede a minha coleção de cds. São poucos, eu te espero na esquina. Mas não dá mesmo pra eu ir.

Claro, somos amigos. Por que não?, claro, claro. Concordei, em absoluto. E não seria dessa vez que deixaria de dar belos conselhos que iam contra o que eu sentia.

- Mas olha, fale com ela novamente. Vá atrás, tente voltar!

Ela já sabia que estava cruzada a linha que separa o querer para si da amizade. Aquilo que torna impossível o outro olhar com desejo porque já se tem o olhar de amigo. E dali pra adiante não haveria mais o olhar que despertava dúvidas. Os poucos metro de distância entre dois corpos não seria diminuído com o encontro dos olhos. Não mais.

- Insista. Faça qualquer coisa e deixe arrependimentos para depois. Esqueça o orgulho.

De maneira insana, dizia ao moço-paixão para reconquistar sua ex-namorada. Que era pra ele o ideal de mulher. Perfeita em todas as virtudes e falhas.

Pensou que as palavras de incentivo seguiam uma lógica torta. Deviam partir dela pra si própria, era ela que precisava dessa confiança pra soltar tudo o que sentia, de vez. Pervertia o sentido do que se passava no coração. Desacreditava de tamanha covardia, que se travestia de coragem em palavras de ajuda.

Por hora, na loja de livros, era preciso traçar um rumo. Estava perdida. Sem o encontro, sem o moço, sem o papel de amiga que consola e faz piadas.

Na rua, as pessoas pareciam saber o conteúdo de suas idéias. Teve o homem que a acompanhou, à curta distância, e com certeza ciente daquela tristeza toda. Não aguentaria a exposição da própria ilusão, desviou o caminho para uma loja na qual nunca quis entrar. Vitrines, roupas, promessas de felicidade em dez vezes ou cheque direto para a Páscoa.

Achou por bem raciocinar sobre o acontecido. Contou a si mesma e admirou-se por tamanha infantilidade. O que estava pensando? Tinha por acaso doze anos? Amor platônico, ahn? E achava que isso ia dar em que? O que raios fazia no meio da cidade, enfrentando a dureza do sol das três da tarde e as pedras soltas na calçada? Quem estava pensando que era?

Lembrou-se. Não quis escutar o que se passava pela cabeça. Lembrou das palavras diretas. "Ela é o meu ideal de mulher". Como bexiga vagabunda após duas horas de festa, murchou. A auto estima e a vontade, quase pode ouvir o barulho da ilusão indo embora. Ideal, ideal. Mulher.

Poderia ligar e dizer tudo o que pensava e sentia. Poderia tentar algo. Poderia ter um não de verdade pra enfrentar, e não só ideias e hipóteses. Mas não o faria, sabia.

Em casa haveria Sessão da Tarde. Poderia fazer um bolo de chocolate e fingir que nada havia acontecido. Como única testemunha de um fracasso desconhecido, o suor caía pela testa. Duas quadras e poderia deitar no chão da cozinha. Ainda bem.


Recebi por e-mail de uma amiga. Não nos falamos há tempos, mas ela está sempre por aqui, lendo. Obrigada, Patinha. =)

"Oi Gi, tudo bem...queria fazer um comentário no seu blog, mas não deu certo, simplesmente desisti de tentar me adaptar a estas mídias e as formas como funcionam. Eu admito: "não sei mexer, não sei usar.. " Enfim, só queria dizer que simplesmente amo seu blog, sobre o que escreve, como escreve. Às vezes sinto que você tem a capacidade de ler pensamentos. Leio alguns posts e penso: "caramba, é bem o que senti, o que pensei". a diferença é que você consegue transformar em palavras este monte de pensamentos e sensações. enfim, Às vezes sinto que você tem a capacidade de ler pensamentos.Definitivamente, sou sua fã. Ah, certamente estou nesta estatística que você não entendeu muito bem da contagem de visitantes.. sempre passo por aqui para ver se a dona Gislaine escreveu algo de novo. rsrs. Saudade de você. um grande bjo e tudo de bom.

Patinha"

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Truques virtuais

Eu acho que o Blogger tá bem de sacanagem. Ele me diz que todo dia tem algum visitante nesse blog. Todo dia. E às vezes é mais de um. Às vezes tem... dez acessos por dia. Quatorze. Vinte e um! Eu acho que é mais ou menos como aquela teoria do radar. De que quando você é pego uma ou duas vezes, toda hora recebe uma multa como se tivesse mesmo passado acima da velocidade, em qualquer local aleatório. É, uma vez aconteceu com meu pai. Ele estaria em Ponta Grossa num momento e, em menos de uma hora, no Centro de Curitiba. Duas multas no mesmo dia em intervalo de tempo impossível. Daí a teoria.

Mas o blog. Veja só, o blog é um espaço em que vez ou outra tem texto. E vez ou outra esse texto é legal. E vez ou outra alguém entra e lê um texto que pode ou não ser legal. Não tem sentindo ter dez acessos num dia, todos os dias, o mês inteiro.

Não faz sentido algum. Eu entenderia um ou dois acessos a cada três dias. Eu entenderia cinco acessos a cada quatro dias. Eu entenderia até cinco dias a cada dois acessos. Eu fico semanas sem escrever e quando entro na página de administradora eu vejo que foram 367 acessos num mês.

Trezentos e sessenta e sete.

...

Divertido.



segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Depois que eu me encontrar


Eu dobrei a esquina sem ter a mais vaga noção do que encontraria. Um dia com asfalto quente, sorvete mole escorrendo do palito, alegria-triste na mendiga da padaria, cachorro magro atravessando na frente da van escolar. O horóscopo não fez a previsão, não foi possível me preparar com antecedência. A cigana da praça não notou nas linhas de minhas mãos o evento futuro.

O Bom Dia Brasil não conseguiu antever os fatos. A precaução de senhoras aposentadas, contando seu dinheirinho antes de chegar no caixa da farmácia não seria suficiente para impedir meu espanto. O gato preto ficou surpreso e passou por baixo da escada. A moça que ia pular do décimo andar parou para ver, permitindo-se um último momento de curiosidade em vida.

O pedreiro deixou o cimento secar enquanto coçava a cabeça, intrigado com o que via. O vendedor de redes se abaixou, deixando a curva do final das costas exposta como sorriso de bêbado. O ônibus que caminhava para o ponto diminuiu o ritmo para esperar o fim do acontecimento. O certo é que num raio de cem metros o dia de repente estremeceu e decidiu apenas se arrastar.

Eu caminhava para a hora estranha de minha vida. Ele vinha correndo, aos tropeços, mais rápido do que o motoboy que capotou enquanto olhava a cena, mais devagar do que o piscar conformado do gato cinza que observava do alto de um muro. Estranhamente, ele vinha ao meu encontro. Não era possível enxergar sua intenção com tal atitude, mas o objetivo, visivelmente, era chegar até mim ou, no mínimo, me atropelar sem pensar duas vezes.

Pronto, agora você vai lá e continua essa história, porque eu parei aí.


Vendem-se ideias

Tenho muitas ideias e vontades aleatórias. Eu só não as realizo. Eu poderia ser paga pra ter boas ideias. Não essas que funcionam, técnicas, de resolver problemas, exatas. Mas as ideias aleatórias. Vendem-se ideias aleatórias. É, eu poderia ser paga pra criar esse tipo de coisa. 

Fui dormir ontem pensando que legal seria escrever um livro de presente. Assim: uma página por dia durante o ano todo e entregar pra pessoa no dia do seu aniversário. Pode ser um livro de histórias, mas pode ser só de frases, um pensamento que se pensou por dia. Aleatório, claro.

Tenho ideias de coisas pra se trabalhar: serviços que podem ser oferecidos, projetos que podem render muita diversão e, quem sabe, algum dinheiro. Presentes que podem ser dados ou construídos de forma bem específica.

Tenho ideias para nomes engraçados de livros. Ideias para histórias de livros, ideias para contos, crônicas e bilhetes.

Ideias de coisas bobas para se fazer na rua. 

Ideias eu tenho aos montes. Aos borbotões. Não me peça para executá-las. Posso contratar alguém pra isso. Vendem-se ideias. Ou: contrata-se gente esperta para colocar boas ideias em prática.

Não se pode ter tudo, oras.



domingo, 14 de outubro de 2012

Eu ia...

...dizer tudo o que senti hoje, por volta das 22 horas. Mas é tão bom e incrível e íntimo e me faz tão feliz que eu decidi guardar só pra mim.

Há.


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Eu estava errada. A resposta é: amor



Eu estava errada. A resposta é: amor. Tudo aquilo de se preocupar em conquistar sucesso, reconhecimento e espaço no mundo, tudo aquilo estava errado.

Nos últimos dias eu vinha dizendo que o fato de acreditar, sempre, nas pessoas e no que me dizem, acaba me prejudicando. E que eu deveria ser mais cética em relação ao mundo e às intenções de qualquer um que passe pelo meu caminho. 

No entanto, isso me torna cínica e desacreditada. Me leva a pensar que as coisas não valem a pena e que é a competitividade que move o mundo. Me torna descrente e sem vontade de participar de um jogo onde o mais importante é se dar bem.

E não, não é o que eu quero. Porque quanto mais desconfiada e “esperta” me torno, menos alegria eu tenho.
A resposta é amor. O sentimento que eu sempre tive em mim pelas pessoas, animais, pelo mundo e o que existe nele. O que senti hoje pela manhã foi que não sou alguém que busca vencer na vida com base nos parâmetros “comuns”, tais como dinheiro e sucesso profissional. Eu sempre acreditei que o natural é ser feliz com o que se é e o que se pode receber da vida, assim como o que se pode dar. E havia perdido isso nos últimos meses. Essa consciência de que, ei, não importa se alguém tem o objetivo claro de te passar para trás, o que tem importância é a minha própria sinceridade. Eu ainda ganho quando me mantenho sincera, ainda que haja alguém tirando vantagem sobre isso.

É como quando eu ofereço uma moeda pra alguém da rua que parece estar precisando de ajuda e alguém do meu lado diz “você sabe que ele vai usar pra comprar bebida, não é?”. Sim, é possível, mas a minha intenção foi, sinceramente, de ajudar, dentro das possibilidades daquele momento. E você pode me dizer que o conselho sobre não dar dinheiro a pessoas de rua é útil, tem lá seu sentido, mas não pode me convencer que é mais importante ser esperto do que deixar o que sente te guiar.

A resposta é amor porque ele vai além do amor romântico, ele é maior do que uma amizade, ele está lá bem depois do amor próprio. É o amor pela vida e pelo que me acontece diariamente, pela oportunidade de conhecer pessoas e respirar e comer um pedaço de pudim de leite e achar que é a melhor coisa do mundo. É gratidão. É o amor de olha pra alguém que só mostra individualidade, que só fala de consumo e de coisas materiais e ver que mesmo essa pessoa é boa, essencialmente boa, não importa o que se esforce para demonstrar. É o amor que me faz sentir que, quando alguém grita comigo e tenta provar que está certo, é só uma necessidade dela de se fazer mais forte e se sentir menos pequena nesse mundo ou na situação que está vivendo. É o amor que me diz que não vale a pena deixar coisinhas bobas, que em geral mexem mais com o ego do que com o coração, acinzentarem meus dias, tirando as cores bonitas que eu tanto gosto de enxergar. 

Por isso, repito: eu estava errada. Eu posso nunca vir a deixar uma obra importante pra humanidade ou conquistar reconhecimento profissional ou mesmo ganhar dinheiro para viajar pelo mundo e... tudo bem! Assim como posso ser quem eu bem quiser aqui, dentro do meu coração, aquilo que me faz bem e me faz sentir que sou verdadeira. 

E o melhor: hoje acredito que eu já seja exatamente aquela que eu sempre quis ser.

E aqui logo abaixo está a música que conseguiu me fazer acordar para a vida, hoje pela manhã:

Bernward Koch - Walking Through Clouds