sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Caixa alta, férias, relógios

Ficar parada, sem trabalhar, para ela, era como estar no meio de uma grande corrida, com corredores desesperados, sem se mexer. Só olhando enquanto o mundo corre ao seu redor. E as pessoas esbarram nela: “Fica pelo caminho atrapalhando os outros, veja se pode uma coisa dessas”. E os coelhos brancos, com seus fraques e relógios estão sempre atrasados em busca de algo que não sabem exatamente o que é. Eles ficam satisfeitos, de vez em quando, ao conseguir chegar pontualmente ao trabalho. “Olha que legal, cheguei dez minutos mais cedo hoje, quer dizer que tenho tempo de respirar antes de receber um milhão de tarefas que não terei condições de cumprir hoje e que me farão dormir mal de noite e me farão chegar atrasada de novo amanhã, quando terei mais duzentas e trinta tarefas que não cumprirei porque se elas forem cumpridas, minha missão acaba aqui. E ainda sou jovem para morrer”.

Caixa alta, por exemplo. Não entendia porque as pessoas, ao escreverem em cadernos ou computadores ou recados para a empregada ou em letreiros de loja se davam ao direito de usar a letra maiúscula onde ela não era necessária. “Comunicamos os Funcionários que nesta Sexta-feira não haverá Expediente por conta da manutenção dos computadores da Empresa”. Quem disse que a pessoa poderia escrever Expediente em caixa alta? E aquelas que acham que os dias da semana têm de começar com letra maiúscula? É como se dessem uma grande importância a algumas palavras. Como rainhas que olham para seus súditos por cima, lá no alto, no castelo. E você pode dizer: não, não é com letra maiúscula. Mas depois virão outros anúncios, outros parágrafos, outras linhas com palavras que mandam nas outras palavras. E ninguém sabe por que. Simplesmente porque parecem ser palavras que precisam ser contempladas, idolatradas. Sexta-feira. Do alto de sua altíssima importância e de sua bondade de compartilhar a existência com as míseras outras, como sapato, cruzadinha ou blitz.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Silêncio: a cidade só quer respirar


A madrugada continua tendo aquela calma que me faz sentir. Nessas poucas horas Curitiba para, que é uma cidade que para sim. A Visconde de Guarapuava não tem nenhum carro às três e meia da manhã. As pessoas que se apressam ao meio dia, que suam esperando o semáforo abrir às quatorze horas e que esbarram em outras e pedem desculpas às 17h não estão mais lá às três e meia da manhã. Já foram embora, entraram nos ônibus do Terminal Guadalupe, compraram o refrigerante que tomaram vendo televisão antes de dormir. E estão em casa. Outras, sem casa, na rua. Mas paradas. Não andam a essas horas. Assim, a avenida, grande e cheia de luz, fica vazia de vida. O asfalto, feliz, descansa. E sente a temperatura mudar, grau a grau, até dar nove horas e o sol queimar ele novamente, até os pneus passarem, pouco gentis, duros, sem dar a ele tempo de respirar.

O Jardim Botânico de noite fica vermelho. Sim, a iluminação faz com que ele pareça uma flor estranha, daquelas que não sei o nome, talvez gérbera, três cúpulas vermelhas lá longe. Lá as flores e as outras plantas também dormem, que precisam estar bonitas para que as visitas do dia seguinte se encantem com elas. E digam que Curitiba é uma cidade linda. Mesmo não sendo tanto assim. Ou sendo só de madrugada, não sei ao certo.

Quando as pessoas dormem sinto que a cidade respira. Uma respiração pesada no início, mas que traz alívio e depois se torna mais leve. A cidade começa a dormir quando as pessoas começam a acordar. Quando ela se acostumou com o silêncio, o barulho já voltou a acontecer. As notícias são dadas com ares de grande importância. Novas mortes, brigas em boates, políticos metidos em escândalos, matérias frias sobre a troca de presentes depois do Dia das Crianças. Receitas culinárias em programas matinais. Capítulos antigos de novela reprisada gravada em um tempo em que nada disso ainda havia acontecido. Como era antes, será? Eu sabia, eu vivi aquela época. Mas ela parece distante. Depois de acordar, dormir, acordar e ver a cidade respirar, depois de ela se ressentir dos passos brutos que acompanha sobre si mesma aquele tempo me parece ter acontecido há muitas décadas. E talvez tenha sido assim. Então respiro, ouço o silêncio, presto atenção aos minutos, um após o outro que sem barulho se sucedem. E são marcados em relógios que devem despertar em algumas horas. Pra acordar pessoas que têm muitos compromissos e não podem se dar ao luxo de ouvir o silêncio.

Eu posso. Então fico aqui e o faço.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O ontem logo ali


Encontrei esse texto meu em um blog coletivo - Nosso Garfo de Cada Dia do qual fiz parte em 2006. Mais um com cara de "nem te ligo, tristeza". Gosto deles, formam uma série interessante.

Igual unitário
Gislaine Bueno


...Aliás, ontem me disseram adeus. Eu disse "até logo". Com cara de quem perdeu o trem. E a viagem. E ficou em casa, e tirou as pilhas do relógio. Eu pensei que a minha solidão fosse diferente. Mas ela me iguala. À você e à eles. Todos os eles que caminham por aí. Trazem em pacotinhos de pão as mesmas frustrações. Empurram portas giratórias. Tomam comprimidos coloridos pra doenças não-específicas.

Eu achei que havia algo de diferente nas minhas ações. Talvez houvesse um pingo de singularidade no conjunto de palavras, atitudes, silêncios. Não havia. A ilusão maior, e que move, é pensar que a sua vida daria uma grande história. Um romance? Um filme, tendo bossa nova como trilha sonora? E uma atriz fumando em um congestionamento, com cara de "eu sou cool"?
Alguns se conformarão ao se identificar com personagens da TV.

Mas a maioria das vidas não é capaz de preencher uma página de jornal. Destinam-se apenas à duas linhas, no obituário. Com erros na grafia de seus nomes. Valas comuns. Trajetos quase idênticos.

A minha solidão é como a do homem dormindo na calçada, como a da senhora na lojinha de costura, como a do rapaz que frequenta as altas rodas da sociedade e tem um grande círculo de relações.

Girando sozinho.

Os fins nos igualam. A morte, o adeus, o "não dá mais", o tchauzinho pro carro antes da viagem. Sentimentos me igualam. E o roteiro é universal. Com os diálogos previstos após dois segundos de olhar cabisbaixo e três segundos antes do abraço. Com a sequência exata de frases ditas e hesitações. As palavras de consolo são iguais. Votos de felicidade, tais e quais.

Então você entra na Casa dos Espelhos. E não acha diferença entre o que é e o que vê. Pensa em pedir de volta o dinheiro da entrada. Mas o cartaz, escrito ao contrário, diz: "a interpretação faz parte da prova".

O sentir-se só é tão igual, passei a pensar que ele nos unia. Que nada, ele apenas torna comum.
 
E isola.
 
Pessoas numeradas em códigos de barras.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Ver a vida como filme ou como foto



Não pergunte quem disse ou onde está registrado, mas faz todo sentido: o modo de levar a vida tem muito a ver com a capacidade de colocar os fatos em perspectiva. É a diferença entre ver a vida como uma fotografia, onde só existe aquela cena, isolada de um contexto, ou de ver como um filme, onde cada cena contribui pra que a outra aconteça e tudo, tudo tem uma ligação.

O Bira, um puta professor de literatura brasileira que tive no curso de Letras dizia que em um bom livro, quando uma espingarda aparece pendurada na parede da casa de um personagem no início da história, ela tem de ser usada em algum momento dessa história, até o final do livro. Se algum elemento aparece gratuitamente, perdido, fora do contexto, é porque o livro não é assim tão bom. Na minha vida também tem sido assim. Aparecem detalhes, pessoas, situações que acabam sempre provando que até os segundos que me atraso ao sair de caso têm razão de ser.

E aprendo aos poucos a ver a vida como um filme. Uma ou outra cena, é verdade, me causa arrepio e dá vontade de gritar pelo pequeno pânico que meu estômago sente em alguns segundos. Mas passa. E mesmo quando acho que é só uma foto ruim, mal tirada, com uma paisagem ou companhia que não ajudam, ainda assim consigo ver a cena seguinte, as possibilidades das cenas seguintes. Colecionar fotos ruins também tem lá suas vantagens. Uma coleção de erros, defeitos e coisinhas estragadas. E monta um pequeno mural, o mural dos erros. Porque você consegue, se quiser, separar os seus dias por categorias. E isso é ótimo.

Adoro categorizar. Separar os fatos de acordo com temas, sensações, conseqüências.

Hoje fez um sol gostoso e o vento quente me fez lembrar dias de verão. Me fez lembrar tudo o que já senti em tempos assim. E, devo dizer, é tudo tão diferente hoje. Diferente pra melhor. Com mais de tudo, um pouco mais de pequenos temperos que fazem tanta diferença, tanta...

sábado, 20 de agosto de 2011

Clima organizacional - motivação e desmotivação


Não, o texto não é meu... Roda pela internet sem autoria e com muito sentido.


=)




Como funciona o mundo corporativo:




Todos os dias, uma formiga chegva cedinho ao escritório e pegava duro no trabalho


A formiga era produtiva e feliz. O gerente besouro estranhou a formiga trabalhar sem supervisão.


Se ela era produtiva sem supervisão, seria ainda mais se fosse supervisionada.


E colocou uma barata, que preparava belíssimos relatórios e tinha muita experiência, como supervisora.


A primeira preocupação da barata foi a de padronizar o horário de entrada e saída da formiga.


Logo, a barata precisou de uma secretária para ajudar a preparar os relatórios e contratou também uma aranha para organizar os arquivos e controlar as ligações telefônicas.


O besouro ficou encantado com os relatórios da barata e pediu também gráficos com indicadores e análise das tendências que eram mostradas em reuniões.


A barata, então, contratou uma mosca,  e comprou um computador com impressora colorida.Logo, a formiga produtiva e feliz, começou a se lamentar de toda aquela movimentação de papéis e reuniões!


O besouro concluiu que era o momento de criar a função de gestor para a área onde a formiga produtiva e feliz, trabalhava.


O cargo foi dado a uma cigarra, que mandou colocar carpete no seu escritório e comprar uma cadeira especial.


A nova gestora cigarra logo precisou de um computador e de
uma assistente a pulga (sua assistente na empresa anterior) para ajudá-la a preparar um plano estratégico de melhorias e um controle do orçamento para a área onde trabalhava a formiga, que já não cantarolava mais e cada dia se tornava mais chateada.


A cigarra, então, convenceu o gerente besouro, que era preciso fazer um estudo de clima.


Mas, o besouro, ao rever as cifras, se deu conta de que a unidade na qual a formiga trabalhava já não rendia como antes e contratou a coruja, uma prestigiada consultora, muito famosa, para que fizesse um diagnóstico da situação. A coruja permaneceu três meses nos escritórios e emitiu um volumoso relatório, com vários volumes que concluía: Há muita gente nesta empresa!


E adivinha quem o besouro mandou demitir?


A formiga, claro, porque ela andava muito desmotivada e aborrecida.


Já viu esse filme antes?



domingo, 24 de julho de 2011

A vida como música

Gosto de metáforas e comparações: a vida é como música. Cada pessoa tem a sua, algumas têm um refrão que se repete e se repete. Lembra de como as músicas não tinham final nos anos 80? Elas terminavam com o volume abaixando enquanto a banda repetia o refrão ou os versos finais, e repetiam, até baixar tudo. Agora as músicas têm ponto final.

Se a minha vida fosse uma música, e é, acredito muitas vezes, teria um refrão repetitivo mais ou menos desse jeito:

Tenho que ir; tem que fazer
Vou terminar, devia de ter
Preciso, preciso, vou ter de fazer

Mesmo com o planeta girando, com novos valores, ídolos, noções de tempo e um universo diferente que nasce todos os dias pelas ruas e na vida das pessoas, continuo parada nesse refrão. É verdade que os versos mudam em alguns períodos, com ritmo mais ou menos acelerado, um baixo no fundo pra deixar a melodia mais sofisticada, uma guitarra solo nos momentos mais nervosos. E aí volta o refrão.

Preciso, tenho, devia. Três palavras que gravitam em torno de mim todos os dias.

Vou comprar um mata-moscas.

"Como seria melhor se não houvesse refrão nenhum", diz Ludov em "Princesa".



terça-feira, 19 de julho de 2011

A dama e o xadrez

Diferente da novela e do filme, na vida não tem aquela linha forte que separa o bem do mal. Pessoas boas de pessoas ruins, gente legal de sangue sugas, joio do trigo.

Se houvesse uma separação tão exata quanto há no mapa da África haveria menos confusão.

Porque eu tenho reais dificuldades de identificar quem tem más intenções. A princípio, e durante um bom tempo, pra mim todas as pessoas são sinceras. E querem todas o bem umas das outras. É como se eu não tivesse passado do jardim de infância, quando fiquei muito chocada ao ver uma menina com raiva morder o braço de outra. "Como assim você consegue machucar uma pessoa?"

E é assim que funciona: meu sensor pra detectar manipulações não existe. Ele até tenta soar, mas nessa hora toca "All you need is love", o céu fica azul com passarinhos e é como se os segundos de lucidez nunca tivessem existido.

Tenho problemas em identificar atitudes de outros que possam me prejudicar e que, mais do que isso, são feitas com esse propósito. E a mágoa que entra rápido no meu sangue e me envenena sai tão rápido quanto entrou, é só eu respirar com calma, 1, 2, 3 e já passou.

Me falta malícia, é verdade. Capacidade de enxergar os jogos que todo mundo joga o tempo todo, perceber quando estão me empurrando duas casas à frente porque alguém arremessou os dados por mim. Caio na casinha que diz para passar a vez, ficar uma rodada sem jogar. E de novo, e de novo.

No fim são todos peões assustados com medo de pular no quadrado errado, aquele que é feito de gelo fino, quebra e te deixa congelando na água.

A propósito, eu já falei que tenho um São Bernardo pra doar?

sábado, 4 de junho de 2011

2011: o ano que já acabou

Há tempos em que os meses são velhos pra mim. Escrevo datas em cadernos: 30/05/2011. Maio de novo? Ele não foi agora a pouco? Abril, junho, são todas datas que já aconteceram. Concordo, você pensa, todos nós já passamos pelos mesmos meses e continuamos passando todos os anos. Mas não é isso. É como se 2011, assim como 2010, já tivesse acontecido inteiro. Com todas as situações embaraçosas que já passei e com todos os dias em que cheguei atrasada ao trabalho. Com todas as jaquetas de frio que já usei e todos os bom dias que distribuí pela cidade.

2011 é um ano que já aconteceu. Talvez a minha vida também já tenha acontecido. A sensação mais presente é de que tudo já foi dito, escrito, filmado. Pode ser, claro, a overdose de informação e tarefas. Tudo já houve e agora é só um remake dirigido por um diretor esloveno com cidadania americana, do tipo alternativo cultuado pelo povo da banda mais bonita da cidade. E aquele arzinho de retrô que dá o charme ao frio de Curitiba. E o chocolate quente que vem com um biscoito amanteigado e você pensa: "uh, uma boa surpresa nesse ano que já aconteceu".

E se o ano já acabou, o mundo também, pois 2012 é um ano com o qual, nos disseram, não devemos ter boas expectativas. Manterei minhas expectativas pulsantes até maio, pelo menos.

Ou não.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A calma e o sistema

Tem momentos em que encontro um silêncio muito grande. Longe daquela ansiedade que me atropela 20 horas por dia, esse silêncio me leva pra um lugar afastado, como se eu estivesse em cima de uma grande montanha. Totalmente em paz. No ônibus, na rua, no trabalho. As pessoas ficam lá, no lugar que eu as deixo ficar: longe, com seus computadores portáteis, smartphones e poros oleosos. É quando eu penso que o céu é tão grande e a gente fica aqui, preso na terra, com os pés que não conseguem subir mais do que um passo depois do outro. E as pessoas longe. E eu simplesmente não penso no tempo, nos deveres, nas contas, nos remédios, e não tenho vontade de falar. Tudo fica bem e eu queria manter isso por mais tempo.

Mas o sistema cai e é preciso comunicar os clientes. E tem de ser agora. E o silêncio vai embora, e a montanha vira areia. E eu volto a ouvir o barulho das pessoas.

O sistema acaba com meu dia.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

1,2,3 e não

Os gostos de uma pessoa são pedaços dela, e, hoje, se desprendem tão fácil quanto pedaços de cutícula. 1,2,3 e arranco mais uma. E mais uma e outra e oh, não preciso mais ir à manicure.

Que sempre odiei uma pessoa estranha cutucando meus pedaços de pele que nascem onde dizem que não é bonito para uma mulher.

Os interesses, nesses dias, são rápidos e não formam mais a personalidade. São vontades insignificantes, histórias que são compartilhadas entre um café e o botão de curtir do Facebook.

As múltiplas possibilidades só tornam a realidade mais vazia, já que ter em mãos uma caixa de lápis de 36 cores não significa que você irá necessariamente fazer um lindo desenho.

Há mais cores e idéias, mas menos realizações.

É o mesmo com a questão do planejamento. Sou capaz de planejar um dia inteiro de diversão e simplesmente não sair do sofá. Planejar meu orçamento pessoal até 2013 não levar nada a sério. Não comprar um carro em julho, não terminar de pagar as prestações de roupas que nem devia ter comprado. Não ir ao cinema sozinha, não mandar emails para amigos, não sair para conhecer pessoas, não falar com quem gostaria, não tomar um sorvete de Flocos na padaria.

Meu corpo mora em um universo de possibilidades mas minha mente vê um “não” carimbado em cada figurinha do álbum.

domingo, 27 de março de 2011

O Youtube comeu metade do meu cérebro

É tanta coisa pra ver que eu não produzo mais. Tem sempre algum vídeo  no Youtube, uma música, um joguinho porcaria no Facebook ou qualquer outra coisa que me deixa parada na frente do computador.

Eu lembro da histeria coletiva sobre a televisão e o problema dos adolescentes gordos comendo Cheetos e tomando Coca enquanto assistiam seriados ou jogavam video games. Mas a banda larga é ainda pior que a tv.

Nos últimos meses sinto que metade do meu cérebro foi comido pela internet e suas interrupções de três minutos e meio na minha vida, trabalho, criatividade, namoro, alegria, hora do almoço, hora de dormir, qualquer coisa no mundo que esteja acontecendo nesse momento. Não importa. Tem sempre alguma coisa pra ver na internet.

O Youtube comeu metade do meu cérebro.

E eu que me dizia multifunção, com orgulho, virei um pato com LER que compartilha conteúdo pros outros patos da mesma lagoa.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Desista: você não vai dar conta

Há alguns dias, li que as nossas promessas de início de ano raramente se concretizam, assim como os planejamentos que fazemos no trabalho para dar conta de todos os compromissos.

Isso porque, dizia a reportagem, temos uma tendência a superestimar nossa capacidade de realização. Sim, jogamos para cima a expectativa de concluir o que está na agenda. Olha que coisa boa de se descobrir: somos menores do que pensamos ser.

Daí vêm a depressão de ver os dias passando e os planos ficando para trás. Somos dotados de um otimismo burro que nos faz enxergar nossa sombra do tamanho de uma palmeira quando ela tem, na verdade, o tamanho de um pé de couve.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Mapa mundi

Essa música do Thiago Petit me faz sentir uma grande nostalgia. E eu descobri que não é saudade, é nostalgia mesmo. Sabe do que se trata? De uma saudade ilusória, uma falta de algo que já deixou de existir ou que jamais existiu, mas na memória está idealizado. E descobri que a maioria das minhas "saudades" são exatamente isso. Ilusórias: como se tudo o que aconteceu de ontem pra antes fosse muito melhor do que o que há agora e vai haver amanhã. Eu sentia uma saudade que doía de pessoas, épocas e acontecimentos. E eles eram totalmente idealizados na minha cabeça, quando na verdade não foram perfeitos e muitos nem tão legais assim. Os sonhos, você sabia?, são feitos do mesmo material que a memória, por isso acontece de os dois se confundirem muitas vezes.
As minhas memórias afetivas são cheias de vontade de voltar atrás, mas esse "atrás" nunca existiu da forma como hoje eu me lembro.

Foi só descobrindo o que é nostalgia que consegui me libertar de várias correntes, muitos fantasmas e algumas questões que martelavam na minha cabeça. Aquelas que te fazem perder a vida pensando "e se eu tivesse feito assim, e não desse outro jeito?". Entendi que é muito mais um truque da mente do que a própria realidade.

Ah, recomendo o cd todo do Petit, Berlim, Texas.





domingo, 23 de janeiro de 2011

E se nada mais?

Acredito que todas as coisas que acontecem ficam gravadas no chão onde pisamos. Há fragmentos de tristezas e prazeres bem aqui debaixo dos meus e dos seus, são pequenos pedaços soltos que largamos ao andar por aí cheios de sentimentos aleatórios.
Agora que você está por perto eu posso falar. Que antes eu ficava só imaginando o quanto as pessoas sofrem por amores não correspondidos e pensava: hum, que bobagem, tanta vida por aí e elas se arrastando em uma vida difícil de levar.

 E tudo sempre foi uma bobagem pra mim. Eu via as pessoas se esforçando pra comprar carros e casas e roupas e jóias e I-phones. E aí, e depois? Aliás, a sensação do “e depois” era o que me fazia enrolar o máximo de tempo possível para fazer qualquer coisa. E depois, o que mais teria? E se nada mais?

Eu ouvia músicas ruins e me relacionava com amigos que nem tão próximos eram. Me prendia em afazeres simples pra deixar de pensar que, afinal, podia haver coisas maiores do que a louça na pia e a poeira se acumulando na estante. E haveria?

Pensava em todas as idéias que nunca ia realizar mas que, imaginadas, tinham poder suficiente pra dar mais uma corzinha pras horas até o fim do dia chegar mais uma vez. Fazer o que tinha pra ser feito da maneira mais normal possível com um caminhão de expectativas brigando entre si na cabeça é tão cansativo quanto meditar sem pensar em absolutamente nada. O muito vazio e o muito cheio são igualmente difíceis.


quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Da vida das pessoas

Foi numa dessas madrugadas que ela resolveu que é preciso ter ilusão para continuar vivendo. Ao menos, vivendo bem. E ela não encorajaria mais ninguém a sair em busca dos sonhos. Mantinha uma cenoura pendurada em barbante, e fazia questão de manter-se à distancia, olhando de longe: ela está lá.

Conquistar não era difícil, as coisas chegavam com o tempo, e de repente se dava conta de que o que fora tão desejado era parte da vida, e nem havia percebido. Podiam ser pequenas, mas eram conquistas. E existia um horizonte inteiro, aberto, rua onde se vê longe e quer chegar ao fim pra ver mais longe ainda.

Ainda não era tempo de realizar, era isso, só isso. Pensava que até as conquistas precisam acontecer no tempo certo, senão não é tão bom. Então cuidava pra que o tempo certo fosse identificado, do contrário, as coisas já não poderiam acontecer.

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Ele tinha acabado de amarrar o cadarço quando percebeu que o ônibus estava perto demais para dar tempo de chegar ao ponto. Então não havia porque se apressar. Fazer um laço no tênis exige concentração e o tamanho exato de cadarço deve sobrar no lado esquerdo, ou ia pensar nisso durante toda a caminhada que viria depois.

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Três anos vivendo entre idosos lhe dera a paciência que falta hoje nas pessoas. Ela é capaz de esperar um sinal abrir, fechar e depois abri de novo para só então atravessar a rua. E isso não lhe causa nenhum tipo de angústia. Admira-se da impaciência de salas de espera. Da rapidez das consultas médicas, do mau humor em filas de banco. Porque todos os momentos em que é obrigada a parar, simplesmente para e não cria expectativas.

Ela tinha fome de pintar, desenhar, fazer roupas, escrever. Queria definir o mundo em uma arte só sua, porque se sabia capaz. Sabia-se grande, a certeza de que quando fosse, ah, quando começasse ia ser maior do que a casa e a rua toda. Todas as ruas juntas, com as pessoas em seus dias de 24 horas e banhos de 10 minutos.

Eram muito poucas as pessoas com as quais se dava ao trabalho de conversar. Falar e falar era tão cansativo! Antes de abrir a boca, ainda com a idéia passando na cabeça, em um milésimo de segundo, já vinha a certeza: não vale a pena. Nunca valia. Assim passaram-se meses, talvez anos, porque também não valia a pena contar.


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

...é o fim.

Cansaço de fim de ano é o cansaço de toda uma vida. Ok, a gente confraterniza, faz votos de feliz ano novo, abraça, compra presente, assiste comerciais de tv emocionantes, torce pela nova fase da Hebe e... isso tudo cansa.

As expectativas pelas atividades de final de ano cansam mais do que as próprias atividades. Esperar e planejar tomam mais tempo do que esses poucos dias que sobram pra não fazer nada. Aliás, não sobram, porque nesse tempo você entra em crise achando que todos estão fazendo coisas incríveis, como velejar, acampar, deitar na neve, ir do Oiapoque ao Chuí. É a velha depressão de final de ano, quando tudo tem de dar certo e os progrmas têm de ser os melhores do mundo. "O que você vai fazer na virada do ano?" Esperar dar meia-noite, ué. E olhe lá. Sempre fica a impressão de que poderia ser melhor. "É isso aqui, então? Tudo isso pra... isso?" Chega meia-noite e um e pronto, tudo acabou. Lá se foram as roupas brancas, os fogos de artifício, as uvas, as ondas, os abraços, os sonhos de uma vida melhor.

É igual cozinhar. Demora um tempão pra fazer e só uns minutinhos pra comer. Não tem muita graça.

Claro que depressão de final de ano passa. Depois vêm os planos de ano novo. Todas as coisas super legais que eu sempre quis fazer e nos primeiros dias de janeiro parecem tão possíveis... Mas por hora, tenho só o cansaço.

sábado, 25 de dezembro de 2010

O Passado

Comecei a ler um livro chamado "O Passado" e ele, em pessoa, resolveu me aparecer na porta. Não recomendo, mas como o livro parece ser bom e eu sou curiosa, vou até o fim.

Seja lá carma ou o que quiserem chamar.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Micromundo

Há sacolas, mundaréu de gente e também o ar abafado. E é difícil andar pelas ruas, tem de fazer esforço para se misturar com as pessoas. Ufa, ao menos é possível parar sob as marquises e fingir esperar sabe Deus o quê. Entrar em uma loja qualquer sem ser importunado por vendedoras. Não, você não pode me ajudar. Se pudesse, moça, gostaria mesmo? Mesmo?

Pode-se, com o calor, fingir pressão baixa e pedir que avaliem sua saúde arterial na farmácia. Os atendentes quase sempre são simpáticos, exceto quando têm vários clientes para satisfazer, como aquele senhor ali, de camisa cor de abóbora, ele tem três receitas diferentes e não lembra qual é a dosagem. E de 10 para 100 miligramas a diferença é só um zero a mais. Não? Não. Ah, os atendentes de farmácia. Assim como os de feira, é preciso certo traquejo na hora de pedir conselhos. Não me vá perguntar porque, sendo o mesmo remédio, o preço é diferente, em coisa de mais de R$ 15. Poucos saberão dizer, raros confessarão que o mais barato foi menos testado e apresenta prevalência de ataques epiléticos em 4% dos usuários. Mais raros ainda serão os que em você perceberão apenas uma crise de carência, dizendo: "não precisa de remédio não, moça, vem aqui que te dou um abraço. Pronto, agora vai até a padaria e compra a melhor e maior bomba de chocolate que encontrar. Não esqueça de um telefonema para amigo querido. Mãe nessa hora não é boa porque vai fazer perguntas demais, e no final arremata com um 'eu nao disse?' quando você contar que uma de suas tantas ilusões foram frustadas. De novo. A parte boa é que você vai economizar R$ 24 e, tirando os R$ 3,50 da bomba, poderá ainda aplicar em uma boa tinta de cabelo. Que mulher quando quer mudar de vida é isso que faz, não é? O resto, guarde para um cachorro-quente de rua, que é coisa simples mas prazerosa. Tenha uma boa tarde. O próximo, por favor". Quantos desses eu encontrei? Nenhum, mas me fica a sensação de que uma moça quase agiu dessa forma, sendo impedida pelas câmeras de segurança repressoras e a moça do caixa, de batom vermelho, que guarda sob o teclado do computador uma lixa pois não suporta unha lascada.

Ela ia me falar coisas importantes. Iniciou com um suspiro, inclinou-se sobre o balcão de vidro, olhou para o lado da caixa, por dois segundos me olhou fundo nos olhos, numa tentativa de passar a mensagem. Era muita pressão, compreendi. Para compensar, pedi mais duas ou três aspirinas e agradeci pela atenção. Boto fé que na próxima, talvez, ela consiga, quem sabe o meu caso não fosse tão grave. Aquela menina que ali entra agora parece ter maior agonia, será que há então maior merecimento? Ora bolas, lá vai ela, inclina-se, devagar, olha para o balcão de vidro. Vai agora olhar para a menina? Agora, agora? Faz correr a portinha de vidro do balcão. Alcança um simples pó de arroz. E entrega para a menina. Merecedora coisa nenhuma, nem suspense existia naquela alma. Vejo que a atendente mostra certa decepção. A mensagem permanece com ela, e às vezes muda de sentido, como as frutas que só nascem nessa ou naquela estação. E caem de maduras, e não são colhidas, e nem ninguém sente seu sabor, e apodrecem, e viram adubo.
(Sobre frutas não saboreadas, lamenta especialmente pelo limão, que, cheio de variedades em uma mesma fruta, carrega sucos, doces, aromas, o verde mais bonito dentro de si. É verdade, o rapaz que a convidou duas ou três vezes para sair deveria já ter percebido seu gosto por limonada. Não o fez, o tolo)

Ela aguarda o momento exato, que tem de chegar junto com o cliente ideal, o que carrega nos olhos a expressão de desepero contido, mas ainda assim passível de explosão, ainda que para dentro. O que seria uma implosão, claro. Nesse dia, é para acontecer a mistura exata de empatia em via dupla, em que não será preciso mais do que os passos em direção à atendente para que, através do som dos sapatos, ela saiba que é a hora correta. Nada naquela pessoa, nem os poros do rosto nem a sujeira na gola da blusa, nada irá enconbrir o que deve ser dito, o que deve ser feito. Por essa expectativa e certeza, a atendente passa por cima da tristeza e perdoa a menina que não tem a riqueza de alma suficiente. Perdoa inclusive os passantes da calçada, que têm mais o que fazer do que buscar mensagens cifradas no rosto de uma moça de pele branca, branca.

O perdão, ela o concede de forma gratuita. Se pudesse, diria, a todas as pessoas, não só àquela afortunada que deve chegar um dia à frente do balcão e ler de maneira definitiva as razões de as coisas assim serem, mas todas as que passam pelo seu trabalho, e no ônibus, diria que elas estão perdoadas. Por não dar esmola, por gritar com os mais velhos, não esperar o sinal ficar verde e até por uma ou outra mentira, daquelas cabeludas. As mais amenas nem de perdão precisam, diria junto. Por outro lado, sabe que pousar a mão no ombro de desconhecidos pode soar estranho. E é tudo, mesmo, estranho, um conjunto de peças que não apresentam lógica, exceto se vistas sem a exigência de entendimento. Ela sabe disso e de muito mais. Só não é do tipo arrogante, e você não imaginaria que além de buscar medicamentos em prateleiras altas com a ajuda de uma escada, ela ainda chega em casa e arranca a página do calendário ainda antes de ser o dia seguinte. Porque antes de o dia começar, antes de o 'hoje', terminar, tem de se pensar que vai chegar o próximo. O outro, o seguinte também. Assim acabam os motivos para encher a noite de desesperança. Pinga duas gotinhas de limão sobre o travesseiro, não são nem onze horas, mas dorme.

Tudo novo de novo

1, 2, 3, começou tudo outra vez.