segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

É hora de!

Reparou que esse lado chato e melancólico é só um dos pedaços meus? Quando o texto começa a se arrastar com histórias de personagens silenciosos e perdidos no tempo e no espaço, ih, é ladeira abaixo.

É hora de... qualquer outra coisa.

Escrever humor, poesia, músicas que nunca serão cantadas. Pintar quadros para exposições, criar roteiros de tv, crônicas para jornais, unhas coloridas com pinturas abstratas, escrever nas paredes da casa toda e deixar escapar versos pelo corredor do prédio, descendo escadas, todos os degraus felizes porque podem finalmente ler Borges.

Ou não.

É hora de se reinventar. De me reinventar. E as cores da paleta são cada vez mais infinitas, se isso é possível, porque se não for a gente inventa mesmo assim.

É hora de o que for necessário ou bom ou colorido.

É hora, é hora.

Um, dois, três e... valendo!


Não é do tipo que

Luiza não é do tipo que dança. Na festa dos amigos da empresa mal sai do lugar. Se esforça pra mexer os pés quando a banda começa a dizer que o samba não pode morrer nem acabar. Ela não se importaria se. É que não tem na garganta aquele grito preso. Não quer falar nem botar a boca seja lá onde for, menos ainda no trombone. 

Não espera nada do mundo além das seis da tarde e o ônibus que nunca chega. Se arrepende do sapato azul que comprou. Pede um remédio pra dor de cabeça na farmácia. Esquece o número do telefone de casa e depois descobre que melhor é mesmo isso: o silêncio do fim do dia quando ninguém pergunta nada, nem quanto custa a camiseta polo da vitrine.

Entre a mão apertar o trinco da porta e o som se propagar em ondas invadindo a casa inteira existe um universo que nunca ninguém nota, nem ela. O vazio ocupa a mente de Luiza enquanto o merchandising rola solto no capítulo da novela. Mas não acredita mais em comerciais de shampoo. A geladeira cheia só significa que ela não descuida senão o vazio toma, além da mente, a casa inteira. Coloca a televisão no mute e agora sim o que passa na tela se parece com a sua vida. Um carrossel rodando em silêncio com cavalos que não vão sair nunca do círculo colorido onde foram colados. E a música pode ser qualquer uma, ela tem a chance de escolher. Então decide que o silêncio combina mais com o escuro do que com luzes e matizes. E também com a falta de movimento. Involuntário, só o coração bate e continua como se o mundo precisasse tanto assim de euforia. Ao contrário dela, o órgão tem ritmo. Uma pena, Luiza não é do tipo que dança.

domingo, 18 de dezembro de 2011

As cartas que eu não mando

O fim de ano não é o fim de tudo: outros dias virão

É inegável: gosto mais de mim indignada com o universo. A moça boazinha que é feliz não tem tanto talento quanto a que tem raiva de coisas, pessoas, portas ou buzinas de carro. Ela é meiga e querida mas tem papas na língua. “Ai, e se eu disser isso e então...” Então dane-se, minha filha, que o que tem de ser dito tem de ser dito.

Quando me falta paciência as coisas tomam formas mais exageradas, grandes, com cores berrantes e é impossível não reagir a tudo isso. A reação é como se fosse o resultado de uma complexa equação de vigésimo grau que algum professor idiota colocou no quadro, com doze linhas mais parênteses, colchetes e chaves. O resultado é sempre algo tão absurdo quando a expressão que deu origem a ele.

E daí?

Daí que todo o absurdo que está no rosto de quem sua debaixo de um sol quente nas ruas eu consigo enxergar. Consigo ver o que tem no silencio, aquilo que quer explodir e só precisa de um empurrãozinho que pode ser um “posso ajuda-lo?” ou mesmo uma pomba que pousa no fio de luz formando um ângulo perfeito sobre a rua suja.

E só.

Cuidado: eu mudei de lugar algumas certezas

As pessoas continuam a andar pelas lojas e ruas como se um dia não fossem morrer.
E simplesmente não dá para ignorar tudo.

O fato é que preciso escrever aqui o que sempre escrevi, não dá para extinguir isso tudo e pronto, a vida continua igual.

A vida nunca continua igual, as coisas mudam e pra mim mais rápido do que para vocês todos aí do outro lado. Meu dia tem buracos negros que me transportam para lugares diferentes a todo momento. Às vezes esqueço o caminho de volta, aliás.

“É tão emocionante conversar com você, tem sempre tantas novidades”.

É, eu tenho. Uma por semana, uma por mês, uma em cada canto do meu tédio de estar aqui onde eu estou.
Agora é tempo de as pessoas cretinas fazerem planos para o ano que vem e avaliar o que aconteceu nesse. Quando na verdade nunca dá para entender o que aconteceu ou por que.

Preciso de música, gente legal por perto e um pouco de espaço pra fazer os passinhos de dança que ficam presos dentro de mim por eternidades. Eu faço os passos por aí, escondida no hall dos prédios sem porteiros ou quando não consigo abrir a porta porque a chave emperra toda hora.

Pois é.


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Das coisas silenciosas

Do dia em que ela resolveu que não comeria mais couve-flor até hoje se passaram três anos. Nesses dias todos ela pecebeu que as coisas que não faziam barulho estavam entre as mais significativas do mundo. A flor do canteiro da rua não fazia, o leite na caixinha retangular não fazia, a nuvem com cara de coelho não fazia, a cutícula que nascia também não.

Nos silêncios que conseguia identificar nas coisas e pessoas, via um intervalo de vida. Um pequeno espaço entre o "a que horas posso ligar então para falar com ele?" e o suspiro de alguém que definitivamente não queria ser atendente de telemarketing. Ali naquele espacinho cabia muito de tudo o que ela não tinha, a moça do telefone.

Os espacinhos estão sempre por aí. Às vezes eles não têm cores, o que nos obriga a sentir mais do que ver. Respirar mais do que tocar, eles estão sempre por aí. Agora mesmo, nesse intervalo entre a música que acabou e a outra que vai começar, consegue sentir? Como ele não tem cor, você pode pinta-lo da que preferir no momento. Eu escolho o amarelo.

domingo, 6 de novembro de 2011

De não precisar tanto

Ah, os insights. Não sei se com você é assim, mas eles me abrem a cabeça vez ou outra. Quando cursava Letras na faculdade (sim, eu fiz isso até admitir que odiava uma disciplinas que não me lembro o nome), havia uma professora chamada Moema e ela era cheia dos insights. Estávamos na aula, carteira atrás de carteira, e ela simplesmente dizia: “gente, tive um insight. Vai todo mundo lá na biblioteca pesquisar sobre literatura portuguesa e depois voltem aqui que vamos conversar sobre o assunto” (ou um verbete qualquer no dicionário, ou sobre a pedagogia do oprimido, ou a receita de um bolo de laranja). E tirava as pessoas da sua normalidade pra fazer teatro, qualquer coisa que desse na cabeça na hora da aula.

Ah sim, os insights. Talvez isso aconteça com todas as pessoas do planeta: viver e respirar apenas, sem nenhuma outra ambição. Mas sentir uma falta de algo, láaaa no fundo da mente ou do coração, que te faça vibrar, que te faça ter vontade de pegar um papel higiênico molhado e fazer uma escultura. Sabe a vontade?

Pois é. Na maioria das vezes a minha vontade fica presa em um buraco, um buraco como aqueles feito em quintais norte americanos para se construir uma piscina. A vontade está lá, andando no quintal e pronta pra ganhar o mundo quando de repente cai no buraco e não consegue sair de lá mais porque os infelizes da obra não colocaram nem uma rampa pra ela. E ela circula, circula e depois de horas, resolve dormir. Tenho várias delas nesse buraco da piscina, olho de vez em quando láaa do alto, tenho vontade de resgatá-las, mas até essa me vai e cai no buraco. Sabe como? Imagino que saiba.

Mas os insights, eles conseguem fazer as vontades saírem todas juntas! Eles aparecem felizes e contagiam tudo à sua volta. Escrever, por exemplo. É vontade constante. Acontece que de repente envelheci, de repente a distância entre a ideia, o impulso e a ação ficaram maiores. A verdade é que se não é pra ser perfeito, se não é pra ser certo, bonito e bacana, prefiro não fazer. Deixo a vontade ir pro buraco por puro perfeccionismo, um pouco de auto boicote também. E aí vem um insight e me faz descobrir: não precisa nada disso, minha gente. Não precisa ser perfeito, não precisa ser legal nem precisa ser artístico, basta que eu goste de fazer. Não precisa ser em terceira pessoa, não precisa colocar açúcar e canela, não precisa pintar com tinta guache, não precisa se preocupar se o tom desafina, se a poeira foi tirada, se o corte está elegante.

A mim me basta ser.

E aí caem por terra (opa, agora sim) as mil teorias que me fazem desacelerar em uma simples lombada a ponto de parar o carro. Quê isso, quê isso.

Sem essa.

Ah, os insights. Obrigada, Moema.
(com a colaboração casual do blog Jaqueline e o país dasmaravilhas e da Mariana Aydar )

"E se eu..."



 Já falei que confundia nostalgia com saudade, certo? Nostalgia = saudade torta, que confunde o que passou na sua memória, limpando as manchas e deixando só os brilhos do raio de sol de dias passados. Saudade = falta de dias que foram importantes de alguma forma. A nostalgia é uma saudade míope, meio burra.


De tempos em tempos eu preciso pegar uma lupa e olhar para o passado, recente ou antigo, como que para me recolocar no centro da minha vida: ei, estamos aqui e é hora de seguir em frente. Moving on. Na maioria das vezes eu simplesmente ignoro o que passou e, com meu carrinho de golfe, vou andando por um campo verde, seguindo o pôr do sol. E sou boa nisso! Consigo passar por fatos e situações quase sem me despentear, lencinho na cabeça e um óculos de sol (mentira que isso não uso) e uma musiquinha indie no som do carro. Sim, meu carrinho de golfe tem rádio, e daí?

Muita gente precisa fazer retiros espirituais pra se encontrar, outras usam drogas, outras fazem psicanálise. Eu me sento em um sofá confortável e olho pra mim mesma, a Gislaine que fui até aqui. Se no dia a dia não consigo avaliar o impacto das minhas (sempre rápidas) decisões, quando faço isso, consigo. E me dá muito orgulho quando concluo que, sim, fiz o que havia de melhor e, sim, mudei pra melhor. Dá um calorzinho no estômago pensar que se eu tivesse optado por isso ou aquilo, não estaria aqui com essa pequena alegria que me acompanha mais agora do que antes.

Mas como eu dizia, pra me colocar no centro de novo da minha minúscula existência, olho pro passado. Claro que nessas horas sou tomada pelos vagalumes do “E se...?”. Eles ficam em volta da minha cabeça enquanto eu imagino todas as consequências que aconteceriam se os “e se...?” fossem “foi assim”. Então os fatos reais são delicadamente empurrados pela minha imaginação que é invadida por linhas diferentes, ações que não realizei, palavras que não disse, ligações que não fiz e ruas por onde não andei. E eles se transformam em um exercício engraçado porque nunca dá pra ir até o final com certeza de que isso ou aquilo teria acontecido. Só o que dá pra ter certeza é: eu não estaria aqui onde estou. E nem saberia que o aqui é bom se eu não tivesse feito aquilo que eu fiz, mas na imaginação não teria feito. Saca?

Eu e meu rolo compressor (sim, o carrinho de golfe TEM um rolo compressor embutido) caminhamos por aí, procurando sempre um lugar melhor para jogar. A planície onde dá para ver longe, longe e onde dá prazer andar cada passo.

Depois que costuro com a linha imaginária o futuro que não me aconteceu, as decisões que tive e os caminhos que deixei para trás, isso tudo forma um desenho bonito na minha cabeça. Claro que todos somos um pouco o que não fizemos, não fazer é uma opção. Não ser é também. Eu sou um pouco do que não quis fazer, do que não sou, do que não escolhi.

Eu gosto dos vagalumes, eles te divertem de noite e vão embora quando o dia clareia.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Caixa alta, férias, relógios

Ficar parada, sem trabalhar, para ela, era como estar no meio de uma grande corrida, com corredores desesperados, sem se mexer. Só olhando enquanto o mundo corre ao seu redor. E as pessoas esbarram nela: “Fica pelo caminho atrapalhando os outros, veja se pode uma coisa dessas”. E os coelhos brancos, com seus fraques e relógios estão sempre atrasados em busca de algo que não sabem exatamente o que é. Eles ficam satisfeitos, de vez em quando, ao conseguir chegar pontualmente ao trabalho. “Olha que legal, cheguei dez minutos mais cedo hoje, quer dizer que tenho tempo de respirar antes de receber um milhão de tarefas que não terei condições de cumprir hoje e que me farão dormir mal de noite e me farão chegar atrasada de novo amanhã, quando terei mais duzentas e trinta tarefas que não cumprirei porque se elas forem cumpridas, minha missão acaba aqui. E ainda sou jovem para morrer”.

Caixa alta, por exemplo. Não entendia porque as pessoas, ao escreverem em cadernos ou computadores ou recados para a empregada ou em letreiros de loja se davam ao direito de usar a letra maiúscula onde ela não era necessária. “Comunicamos os Funcionários que nesta Sexta-feira não haverá Expediente por conta da manutenção dos computadores da Empresa”. Quem disse que a pessoa poderia escrever Expediente em caixa alta? E aquelas que acham que os dias da semana têm de começar com letra maiúscula? É como se dessem uma grande importância a algumas palavras. Como rainhas que olham para seus súditos por cima, lá no alto, no castelo. E você pode dizer: não, não é com letra maiúscula. Mas depois virão outros anúncios, outros parágrafos, outras linhas com palavras que mandam nas outras palavras. E ninguém sabe por que. Simplesmente porque parecem ser palavras que precisam ser contempladas, idolatradas. Sexta-feira. Do alto de sua altíssima importância e de sua bondade de compartilhar a existência com as míseras outras, como sapato, cruzadinha ou blitz.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Silêncio: a cidade só quer respirar


A madrugada continua tendo aquela calma que me faz sentir. Nessas poucas horas Curitiba para, que é uma cidade que para sim. A Visconde de Guarapuava não tem nenhum carro às três e meia da manhã. As pessoas que se apressam ao meio dia, que suam esperando o semáforo abrir às quatorze horas e que esbarram em outras e pedem desculpas às 17h não estão mais lá às três e meia da manhã. Já foram embora, entraram nos ônibus do Terminal Guadalupe, compraram o refrigerante que tomaram vendo televisão antes de dormir. E estão em casa. Outras, sem casa, na rua. Mas paradas. Não andam a essas horas. Assim, a avenida, grande e cheia de luz, fica vazia de vida. O asfalto, feliz, descansa. E sente a temperatura mudar, grau a grau, até dar nove horas e o sol queimar ele novamente, até os pneus passarem, pouco gentis, duros, sem dar a ele tempo de respirar.

O Jardim Botânico de noite fica vermelho. Sim, a iluminação faz com que ele pareça uma flor estranha, daquelas que não sei o nome, talvez gérbera, três cúpulas vermelhas lá longe. Lá as flores e as outras plantas também dormem, que precisam estar bonitas para que as visitas do dia seguinte se encantem com elas. E digam que Curitiba é uma cidade linda. Mesmo não sendo tanto assim. Ou sendo só de madrugada, não sei ao certo.

Quando as pessoas dormem sinto que a cidade respira. Uma respiração pesada no início, mas que traz alívio e depois se torna mais leve. A cidade começa a dormir quando as pessoas começam a acordar. Quando ela se acostumou com o silêncio, o barulho já voltou a acontecer. As notícias são dadas com ares de grande importância. Novas mortes, brigas em boates, políticos metidos em escândalos, matérias frias sobre a troca de presentes depois do Dia das Crianças. Receitas culinárias em programas matinais. Capítulos antigos de novela reprisada gravada em um tempo em que nada disso ainda havia acontecido. Como era antes, será? Eu sabia, eu vivi aquela época. Mas ela parece distante. Depois de acordar, dormir, acordar e ver a cidade respirar, depois de ela se ressentir dos passos brutos que acompanha sobre si mesma aquele tempo me parece ter acontecido há muitas décadas. E talvez tenha sido assim. Então respiro, ouço o silêncio, presto atenção aos minutos, um após o outro que sem barulho se sucedem. E são marcados em relógios que devem despertar em algumas horas. Pra acordar pessoas que têm muitos compromissos e não podem se dar ao luxo de ouvir o silêncio.

Eu posso. Então fico aqui e o faço.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O ontem logo ali


Encontrei esse texto meu em um blog coletivo - Nosso Garfo de Cada Dia do qual fiz parte em 2006. Mais um com cara de "nem te ligo, tristeza". Gosto deles, formam uma série interessante.

Igual unitário
Gislaine Bueno


...Aliás, ontem me disseram adeus. Eu disse "até logo". Com cara de quem perdeu o trem. E a viagem. E ficou em casa, e tirou as pilhas do relógio. Eu pensei que a minha solidão fosse diferente. Mas ela me iguala. À você e à eles. Todos os eles que caminham por aí. Trazem em pacotinhos de pão as mesmas frustrações. Empurram portas giratórias. Tomam comprimidos coloridos pra doenças não-específicas.

Eu achei que havia algo de diferente nas minhas ações. Talvez houvesse um pingo de singularidade no conjunto de palavras, atitudes, silêncios. Não havia. A ilusão maior, e que move, é pensar que a sua vida daria uma grande história. Um romance? Um filme, tendo bossa nova como trilha sonora? E uma atriz fumando em um congestionamento, com cara de "eu sou cool"?
Alguns se conformarão ao se identificar com personagens da TV.

Mas a maioria das vidas não é capaz de preencher uma página de jornal. Destinam-se apenas à duas linhas, no obituário. Com erros na grafia de seus nomes. Valas comuns. Trajetos quase idênticos.

A minha solidão é como a do homem dormindo na calçada, como a da senhora na lojinha de costura, como a do rapaz que frequenta as altas rodas da sociedade e tem um grande círculo de relações.

Girando sozinho.

Os fins nos igualam. A morte, o adeus, o "não dá mais", o tchauzinho pro carro antes da viagem. Sentimentos me igualam. E o roteiro é universal. Com os diálogos previstos após dois segundos de olhar cabisbaixo e três segundos antes do abraço. Com a sequência exata de frases ditas e hesitações. As palavras de consolo são iguais. Votos de felicidade, tais e quais.

Então você entra na Casa dos Espelhos. E não acha diferença entre o que é e o que vê. Pensa em pedir de volta o dinheiro da entrada. Mas o cartaz, escrito ao contrário, diz: "a interpretação faz parte da prova".

O sentir-se só é tão igual, passei a pensar que ele nos unia. Que nada, ele apenas torna comum.
 
E isola.
 
Pessoas numeradas em códigos de barras.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Ver a vida como filme ou como foto



Não pergunte quem disse ou onde está registrado, mas faz todo sentido: o modo de levar a vida tem muito a ver com a capacidade de colocar os fatos em perspectiva. É a diferença entre ver a vida como uma fotografia, onde só existe aquela cena, isolada de um contexto, ou de ver como um filme, onde cada cena contribui pra que a outra aconteça e tudo, tudo tem uma ligação.

O Bira, um puta professor de literatura brasileira que tive no curso de Letras dizia que em um bom livro, quando uma espingarda aparece pendurada na parede da casa de um personagem no início da história, ela tem de ser usada em algum momento dessa história, até o final do livro. Se algum elemento aparece gratuitamente, perdido, fora do contexto, é porque o livro não é assim tão bom. Na minha vida também tem sido assim. Aparecem detalhes, pessoas, situações que acabam sempre provando que até os segundos que me atraso ao sair de caso têm razão de ser.

E aprendo aos poucos a ver a vida como um filme. Uma ou outra cena, é verdade, me causa arrepio e dá vontade de gritar pelo pequeno pânico que meu estômago sente em alguns segundos. Mas passa. E mesmo quando acho que é só uma foto ruim, mal tirada, com uma paisagem ou companhia que não ajudam, ainda assim consigo ver a cena seguinte, as possibilidades das cenas seguintes. Colecionar fotos ruins também tem lá suas vantagens. Uma coleção de erros, defeitos e coisinhas estragadas. E monta um pequeno mural, o mural dos erros. Porque você consegue, se quiser, separar os seus dias por categorias. E isso é ótimo.

Adoro categorizar. Separar os fatos de acordo com temas, sensações, conseqüências.

Hoje fez um sol gostoso e o vento quente me fez lembrar dias de verão. Me fez lembrar tudo o que já senti em tempos assim. E, devo dizer, é tudo tão diferente hoje. Diferente pra melhor. Com mais de tudo, um pouco mais de pequenos temperos que fazem tanta diferença, tanta...

sábado, 20 de agosto de 2011

Clima organizacional - motivação e desmotivação


Não, o texto não é meu... Roda pela internet sem autoria e com muito sentido.


=)




Como funciona o mundo corporativo:




Todos os dias, uma formiga chegva cedinho ao escritório e pegava duro no trabalho


A formiga era produtiva e feliz. O gerente besouro estranhou a formiga trabalhar sem supervisão.


Se ela era produtiva sem supervisão, seria ainda mais se fosse supervisionada.


E colocou uma barata, que preparava belíssimos relatórios e tinha muita experiência, como supervisora.


A primeira preocupação da barata foi a de padronizar o horário de entrada e saída da formiga.


Logo, a barata precisou de uma secretária para ajudar a preparar os relatórios e contratou também uma aranha para organizar os arquivos e controlar as ligações telefônicas.


O besouro ficou encantado com os relatórios da barata e pediu também gráficos com indicadores e análise das tendências que eram mostradas em reuniões.


A barata, então, contratou uma mosca,  e comprou um computador com impressora colorida.Logo, a formiga produtiva e feliz, começou a se lamentar de toda aquela movimentação de papéis e reuniões!


O besouro concluiu que era o momento de criar a função de gestor para a área onde a formiga produtiva e feliz, trabalhava.


O cargo foi dado a uma cigarra, que mandou colocar carpete no seu escritório e comprar uma cadeira especial.


A nova gestora cigarra logo precisou de um computador e de
uma assistente a pulga (sua assistente na empresa anterior) para ajudá-la a preparar um plano estratégico de melhorias e um controle do orçamento para a área onde trabalhava a formiga, que já não cantarolava mais e cada dia se tornava mais chateada.


A cigarra, então, convenceu o gerente besouro, que era preciso fazer um estudo de clima.


Mas, o besouro, ao rever as cifras, se deu conta de que a unidade na qual a formiga trabalhava já não rendia como antes e contratou a coruja, uma prestigiada consultora, muito famosa, para que fizesse um diagnóstico da situação. A coruja permaneceu três meses nos escritórios e emitiu um volumoso relatório, com vários volumes que concluía: Há muita gente nesta empresa!


E adivinha quem o besouro mandou demitir?


A formiga, claro, porque ela andava muito desmotivada e aborrecida.


Já viu esse filme antes?



domingo, 24 de julho de 2011

A vida como música

Gosto de metáforas e comparações: a vida é como música. Cada pessoa tem a sua, algumas têm um refrão que se repete e se repete. Lembra de como as músicas não tinham final nos anos 80? Elas terminavam com o volume abaixando enquanto a banda repetia o refrão ou os versos finais, e repetiam, até baixar tudo. Agora as músicas têm ponto final.

Se a minha vida fosse uma música, e é, acredito muitas vezes, teria um refrão repetitivo mais ou menos desse jeito:

Tenho que ir; tem que fazer
Vou terminar, devia de ter
Preciso, preciso, vou ter de fazer

Mesmo com o planeta girando, com novos valores, ídolos, noções de tempo e um universo diferente que nasce todos os dias pelas ruas e na vida das pessoas, continuo parada nesse refrão. É verdade que os versos mudam em alguns períodos, com ritmo mais ou menos acelerado, um baixo no fundo pra deixar a melodia mais sofisticada, uma guitarra solo nos momentos mais nervosos. E aí volta o refrão.

Preciso, tenho, devia. Três palavras que gravitam em torno de mim todos os dias.

Vou comprar um mata-moscas.

"Como seria melhor se não houvesse refrão nenhum", diz Ludov em "Princesa".



terça-feira, 19 de julho de 2011

A dama e o xadrez

Diferente da novela e do filme, na vida não tem aquela linha forte que separa o bem do mal. Pessoas boas de pessoas ruins, gente legal de sangue sugas, joio do trigo.

Se houvesse uma separação tão exata quanto há no mapa da África haveria menos confusão.

Porque eu tenho reais dificuldades de identificar quem tem más intenções. A princípio, e durante um bom tempo, pra mim todas as pessoas são sinceras. E querem todas o bem umas das outras. É como se eu não tivesse passado do jardim de infância, quando fiquei muito chocada ao ver uma menina com raiva morder o braço de outra. "Como assim você consegue machucar uma pessoa?"

E é assim que funciona: meu sensor pra detectar manipulações não existe. Ele até tenta soar, mas nessa hora toca "All you need is love", o céu fica azul com passarinhos e é como se os segundos de lucidez nunca tivessem existido.

Tenho problemas em identificar atitudes de outros que possam me prejudicar e que, mais do que isso, são feitas com esse propósito. E a mágoa que entra rápido no meu sangue e me envenena sai tão rápido quanto entrou, é só eu respirar com calma, 1, 2, 3 e já passou.

Me falta malícia, é verdade. Capacidade de enxergar os jogos que todo mundo joga o tempo todo, perceber quando estão me empurrando duas casas à frente porque alguém arremessou os dados por mim. Caio na casinha que diz para passar a vez, ficar uma rodada sem jogar. E de novo, e de novo.

No fim são todos peões assustados com medo de pular no quadrado errado, aquele que é feito de gelo fino, quebra e te deixa congelando na água.

A propósito, eu já falei que tenho um São Bernardo pra doar?

sábado, 4 de junho de 2011

2011: o ano que já acabou

Há tempos em que os meses são velhos pra mim. Escrevo datas em cadernos: 30/05/2011. Maio de novo? Ele não foi agora a pouco? Abril, junho, são todas datas que já aconteceram. Concordo, você pensa, todos nós já passamos pelos mesmos meses e continuamos passando todos os anos. Mas não é isso. É como se 2011, assim como 2010, já tivesse acontecido inteiro. Com todas as situações embaraçosas que já passei e com todos os dias em que cheguei atrasada ao trabalho. Com todas as jaquetas de frio que já usei e todos os bom dias que distribuí pela cidade.

2011 é um ano que já aconteceu. Talvez a minha vida também já tenha acontecido. A sensação mais presente é de que tudo já foi dito, escrito, filmado. Pode ser, claro, a overdose de informação e tarefas. Tudo já houve e agora é só um remake dirigido por um diretor esloveno com cidadania americana, do tipo alternativo cultuado pelo povo da banda mais bonita da cidade. E aquele arzinho de retrô que dá o charme ao frio de Curitiba. E o chocolate quente que vem com um biscoito amanteigado e você pensa: "uh, uma boa surpresa nesse ano que já aconteceu".

E se o ano já acabou, o mundo também, pois 2012 é um ano com o qual, nos disseram, não devemos ter boas expectativas. Manterei minhas expectativas pulsantes até maio, pelo menos.

Ou não.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A calma e o sistema

Tem momentos em que encontro um silêncio muito grande. Longe daquela ansiedade que me atropela 20 horas por dia, esse silêncio me leva pra um lugar afastado, como se eu estivesse em cima de uma grande montanha. Totalmente em paz. No ônibus, na rua, no trabalho. As pessoas ficam lá, no lugar que eu as deixo ficar: longe, com seus computadores portáteis, smartphones e poros oleosos. É quando eu penso que o céu é tão grande e a gente fica aqui, preso na terra, com os pés que não conseguem subir mais do que um passo depois do outro. E as pessoas longe. E eu simplesmente não penso no tempo, nos deveres, nas contas, nos remédios, e não tenho vontade de falar. Tudo fica bem e eu queria manter isso por mais tempo.

Mas o sistema cai e é preciso comunicar os clientes. E tem de ser agora. E o silêncio vai embora, e a montanha vira areia. E eu volto a ouvir o barulho das pessoas.

O sistema acaba com meu dia.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

1,2,3 e não

Os gostos de uma pessoa são pedaços dela, e, hoje, se desprendem tão fácil quanto pedaços de cutícula. 1,2,3 e arranco mais uma. E mais uma e outra e oh, não preciso mais ir à manicure.

Que sempre odiei uma pessoa estranha cutucando meus pedaços de pele que nascem onde dizem que não é bonito para uma mulher.

Os interesses, nesses dias, são rápidos e não formam mais a personalidade. São vontades insignificantes, histórias que são compartilhadas entre um café e o botão de curtir do Facebook.

As múltiplas possibilidades só tornam a realidade mais vazia, já que ter em mãos uma caixa de lápis de 36 cores não significa que você irá necessariamente fazer um lindo desenho.

Há mais cores e idéias, mas menos realizações.

É o mesmo com a questão do planejamento. Sou capaz de planejar um dia inteiro de diversão e simplesmente não sair do sofá. Planejar meu orçamento pessoal até 2013 não levar nada a sério. Não comprar um carro em julho, não terminar de pagar as prestações de roupas que nem devia ter comprado. Não ir ao cinema sozinha, não mandar emails para amigos, não sair para conhecer pessoas, não falar com quem gostaria, não tomar um sorvete de Flocos na padaria.

Meu corpo mora em um universo de possibilidades mas minha mente vê um “não” carimbado em cada figurinha do álbum.

domingo, 27 de março de 2011

O Youtube comeu metade do meu cérebro

É tanta coisa pra ver que eu não produzo mais. Tem sempre algum vídeo  no Youtube, uma música, um joguinho porcaria no Facebook ou qualquer outra coisa que me deixa parada na frente do computador.

Eu lembro da histeria coletiva sobre a televisão e o problema dos adolescentes gordos comendo Cheetos e tomando Coca enquanto assistiam seriados ou jogavam video games. Mas a banda larga é ainda pior que a tv.

Nos últimos meses sinto que metade do meu cérebro foi comido pela internet e suas interrupções de três minutos e meio na minha vida, trabalho, criatividade, namoro, alegria, hora do almoço, hora de dormir, qualquer coisa no mundo que esteja acontecendo nesse momento. Não importa. Tem sempre alguma coisa pra ver na internet.

O Youtube comeu metade do meu cérebro.

E eu que me dizia multifunção, com orgulho, virei um pato com LER que compartilha conteúdo pros outros patos da mesma lagoa.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Desista: você não vai dar conta

Há alguns dias, li que as nossas promessas de início de ano raramente se concretizam, assim como os planejamentos que fazemos no trabalho para dar conta de todos os compromissos.

Isso porque, dizia a reportagem, temos uma tendência a superestimar nossa capacidade de realização. Sim, jogamos para cima a expectativa de concluir o que está na agenda. Olha que coisa boa de se descobrir: somos menores do que pensamos ser.

Daí vêm a depressão de ver os dias passando e os planos ficando para trás. Somos dotados de um otimismo burro que nos faz enxergar nossa sombra do tamanho de uma palmeira quando ela tem, na verdade, o tamanho de um pé de couve.