segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Mariana, a moça do livro.


O que acontece é que as pessoas precisam ver sinais para continuar a viver. Ir dormir todos os dias sem ter um sentido pra tudo isso é apavorante. Por isso ela acordou com a certeza de que, sim, as coisas não acontecem por acaso. Não foi de graça que ontem tropeçou na praça de alimentação com 700 ml de refrigerante sobre o homem de camisa azul. Sabia que 700 ml era um exagero na hora em que aceitou outros 200 por apenas mais 10 centavos. A ganância sempre chega com ares de inocência – só mais isso não vai fazer mal e custa tão pouco...

Os segundos mais longos desde que começara a trabalhar na agência de viagens do shopping. Que não era grande coisa, mas tinha o charme moderno de se trabalhar no grande centro de compras da capital. Tudo pertencia a ela, as coisas e as pessoas, os objetos e as sensações.  Ela, Mariana.

Mariana já conhecia de cor as expressões das vendedoras de roupas ou cosméticos, a sequência de cores da vitrine de bolsas e o espaço exato entre um sapato e outro que atraía a atenção de vítimas distraídas. Também sacava, só de bater o olho, o perfil do cliente da vez: feliz e despreocupado, com pressa e dinheiro na mão ou de ar meio blasé, mas que compraria o mundo se encontrasse a promessa certa de felicidade. E de ser olhada também.

Aliás, ser olhada era algo que a incomodava demais, demais. Com o passar dos dias percebeu que era fácil se tornar invisível: bastava usar o uniforme do trabalho. Assim passava despercebida facilmente pelas multidões loucas por batata frita e pelos garotos que dançavam freneticamente nas máquinas com música. E colocava. O uniforme, a maquiagem, a disposição de começar mais um dia sem a perspectiva de um amanhã mais divertido. O hoje já era suficiente quando ela não sabia se no dia seguinte o trabalho estaria no mesmo lugar. Com essa onda de terrorismo e terremoto, nunca se sabe. Se algo acontecesse, sempre pensava, que fosse enquanto pegava o ônibus pra voltar pra casa. Voltaria para o trabalho no dia seguinte e encontraria só destroços, mas poderia alimentar a certeza de que na verdade nada daquilo jamais existiu, sendo apenas cenas de um sonho muito lógico que sonhou várias noites.

Ela, Mariana. Mulher, 25 anos, solteira, atendente de shopping, um metro e sessenta, cabelos pretos sem forma nenhuma, formada em administração de empresas, com três casacos de lã no guarda-roupa e sem absorventes na bolsa para emergências. Ela que poderia ser descrita com menos ou mais palavras e mesmo assim seria a mesma mulher. Aquela que dá bom dia para todos os funcionários do shopping e chega sempre quatro ou cinco minutos atrasada, não importa o horário de seu trabalho. A que não gosta da palavra obturação e prefere tomar remédio com refrigerante. Ela.

Para ela tudo era apenas uma brincadeira, isso de trabalhar e se sustentar, crescer e se tornar responsável pelas torradas e o suco de laranja no café da manhã. E se não houvesse fome, tudo bem. Se não houvesse margarina, tudo bem. Mas os sucrilhos, esses ela se comprometia a manter no armário. Até mais do que o necessário. Que sucrilhos precisam de leite, isso é outra história. Disse que manteria os sucrilhos, o leite era aquele tipo de condição escondida nas letras pequenas de um contrato. A sua consciência e esperteza não lhe advertiram “ei, no contrato diz que os sucrilhos só têm graça com leite”, que se a tivessem avisado ela faria cara de inteligente e diria: “hum, eu sei, oras, nem queria mesmo”. Mas se caía num golpe da própria cabeça, nada de mostrar decepção. O barulho do sucrilho açucarado sem leite pode dar um ritmo novo e gostoso pro noticiário das seis da manhã na TV. E açúcar na vida nunca é demais.

Mariana precisa de espaço para viver. O apartamento poderia ser pequeno, mas tinha de ter o mínimo de ar para um amanhecer festivo. Que amanhecer festivo tem de ter um momento para se espreguiçar e tentar alcançar o teto, todo mundo sabe. Que se esticar feito um gato na cama pode trazer dores se ela, a cama, terminar bruscamente na parede, de maneira deseducada, também. Como se as pessoas não pudessem ter o menor dos prazeres nessa vida. “Não, espreguiçar-se é proibido, está no estatuto do condomínio, além disso, você precisa pagar a taxa de mudança, mesmo que não tenha entrado com móveis no apartamento nem usado o elevador nem derrubado suas coisas pelos corredores do prédio, tem de pagar porque está no estatuto, e cuidado na hora de se espreguiçar que os vizinhos não gostam de ouvir os barulhos íntimos de quem mora no mesmo andar”.

Mariana precisa de espaço para viver. E que o seu espaço seja diferente do espaço dos outros. Espaço no guarda-roupas até para aquelas peças que não usa e das quais definitivamente não gosta, que olha e fala: não, não gosto e fico horrível com ela. E que guarda para um dia se desfazer e ter a sensação de generosidade de quem doa suas coisas com o desprendimento necessário para se sentir bem e útil à humanidade.

O espaço de que precisa para viver nem é tão grande assim. Certa vez esteve em um restaurante em que havia um aquário com um dono sádico. Ao invés de encher o vidro com toda a água que é possível se colocar ali dentro, ele mantinha os peixes nadando em metade da água somente. Por que?, ela se perguntou e puxou o primeiro garçom que apareceu no caminho. “É que assim suja menos água e dá menos trabalho”. Claro. Faz assim então: reserva apenas 4 metros quadrados de sua casa para circular e viver. Assim você suja menos e tem menos trabalho. Que tal? Não disse, seria deselegante, achou.

O espaço de que precisa é assim: algumas horas no dia para fazer algo só seu, sem ninguém lhe perguntando: o que fez, o que está fazendo, o que vai fazer? É um espaço só seu em que não há expectativas nem projeções exageradas sobre o que deveria estar fazendo nesse momento: tarefas, trabalhos, uma preparação para uma vida que nem sabe se viverá.

O espaço de que precisa é claro, iluminado pela luz do sol ou pela luz amarela da sala quando resolve fechar as cortinas e ficar totalmente sozinha. Enquanto isso as pessoas lá fora vivem, e respiram e se preocupam com a conta de luz que ainda não chegou por causa da greve dos Correios.

Ela precisa às vezes se sentir sozinha, como se nas próximas horas o mundo fosse vazio e nada mais tivesse importância. Quando juntava essa solidão com um espaço mais ou menos arrumado e decente, ou seja, quando se dava ao trabalho de limpar seu apartamento e se sentir bem ali, ah, aí era a glória. Uma vida só dela, só dela, só dela. 

Aquilo de se defender e acreditar em si mesma



O que me ensinaram desde pequena é que o importante é ser humilde. Nada de sair por aí dizendo que é melhor do que o outro, nada de exaltar as próprias qualidades, isso é vaidade. Todos são iguais e, bem, é melhor parecer menos do que se envaidecer.

E me ensinaram mais um monte de coisas relacionadas e, junto com aquilo que fui vivendo, aos poucos me fiz a garota que não fala bem de si mesma. Que não diz: ei, eu faço isso TÃO bem. Ei, olha só como tenho talento. Ei, olha aí, sou bela.

Não falo. Às vezes penso que sou, mas dizer em alto e bom som, não. E isso, meus amigos, isso está muito errado.

Tem a ver também com mostrar que sei. Que conheço, que entendo do que estou falando. No trabalho, na faculdade, em uma conversa entre amigos. Sou aquela que ameniza as coisas e deixa pra lá.

Esses tempos ouvi uma amiga dizer: "...e então eu falei que não, que não era assim, afinal, eu sabia do que tava falando, trabalho com isso há seis anos!". E pensei: uau, ela consegue fazer isso. Ela impõe respeito, ela cobra isso do mundo. E admirei. E vi que não faço.

Ao contrário. Ao invés de defender ideias ou conceitos ou coisas que aprendi e que, raios, eu sei, eu acabo colocando tudo como se fosse apenas um achismo. Eu acho que é isso, eu acho que pode dar certo, eu acho que é por esse lado. E acabo confiando mais na liderança dos outros. Alguém que diga: sim, é isso mesmo, está certo, vamos por aqui. Como se o que aprendi ainda não fosse nada. Como se eu fosse alguém  que está eternamente na pré-escola, tentando decifrar o que está escrito no quadro. Eternamente em treinamento.

E tá errado, tá errado. Eu estudei, já trabalhei em alguns lugares, tenho alguma experiência. E tenho de parar de desconfiar do que sei e do que aprendi. E exigir mais respeito.

É preciso parar de andar aí pelo mundo como se eu não fosse nada de importante. Ok, arrogância é um problema, mas ausência de auto-valorização também.

Quando comecei a trabalhar como jornalista, tinha uma postura ainda mais fraca, como se pedisse desculpa por existir. Pedia informação como quem pede esmola. "Desculpe incomodar, mas". Quê isso, minha gente? Pra quê? Melhorei um bocado, mas ainda é como se não pudesse me posicionar direito, mostrando a que vim e o que sou. Chega, chega.

Sim, sou bonita, sim, sou inteligente pacas e sim, quero o seu respeito e de quem cruzar o meu caminho. E eu posso muito mais do que o que conquistei até hoje. Você também pode, a propósito. Afinal, o lance de "porque você vale muito" deveria ser mais, muito mais do que um slogan pra vender cosmético.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Só?

Entre tantas que fui e que quis ser, nenhuma fui que não quisesse ser outra.


segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Quando as palavras saem do livro e te batem na cara




Do livro Inocência, de Kathleen  Tessaro (pag. 55 a 59).

 “ – E você? Quando vamos vê-la no palco? 

Dou um risinho nervoso, alto e agudo. De repente, sinto-me tão pouco à vontade; uma intrusa nessa conversa de ideais e preferências artísticas.

- Ah, não, eu... eu quase não represento mais. Na verdade, agora sou só professora. 

Ele ergue uma sobrancelha.

Eu me atrapalho com uma caixa de saquinhos de chá. Mesmo sem olhar, sei que ele está me observando.

- Estou velha demais para essas bobagens – digo, afinal. – Há muito tempo abandonei isso tudo. Ou melhor, fui abandonada. 

- E como isso aconteceu? – Ele dá mais uma mordida.

A esta hora da noite, já está muito tarde para revelar os fatos da minha fracassada carreira de atriz a um estranho. Mas faço a bobagem de tentar, mesmo assim. 

- Bem, no teatro não é como na música, Piotr. Quer dizer, são tão poucos empregos e tantas pessoas...
Ele joga a cabeça para trás e dá uma gargalhada.

- Ah, isso é verdade! Não tem quase nenhum músico clássico no mundo.!

Enrubesço.

- Desculpe, não foi isso o que eu quis dizer... –Tento de novo. – Bem, nunca cheguei a representar nenhum dos papéis com que tinha sonhado. Nunca cheguei nem perto deles. Acabei atuando só em filmes B, de terror, alguns poucos comerciais...

- Você era uma atriz. – Ele dá de ombros, de novo. – E é isto o que as atrizes fazem. 

- Não, isto é o que as atrizes fracassadas fazem, Piotr.

- Não. – Ele sorri. – Isto também é o que as atrizes de sucesso fazem. De fato, é tudo a mesma coisa.
Assim como Allyson, bati de frente com o Mundo Segundo Piotr Pawlokowski. Aqui, as regras são diferentes.

- Bem, não... – gaguejo, tentando articular um raciocínio ainda não formado. 

- Você é americana. – Ele diagnostica a minha deficiência com um único gesto de sua mão enorme. – Você dá importância demais à ideia de “sucesso”. Nenhum artista encara a vida como sucesso ou fracasso, lucro ou prejuízo, bom ou mau. O objetivo da arte se perde se ela é medida em termos comerciais. 

Fico atônita.

- Mas foi horrível – balbucio debilmente.

Ele franze o cenho, pondo na boca o último pedaço. 

- E você achou que seria divertido?

Faz-se um longo silêncio.

Eu nunca tinha pensado no assunto daquela maneira.

- Sim – admito. – Eu esperava que fosse muito mais divertido do que trabalhar num escritório ou dar aulas a pensionistas ou... ou mesmo qualquer outra coisa. 

Ele ri.

- De onde você tirou essa ideia?

- Porque era assim que me costumava ser. – Não posso evitar um sorriso ao me lembrar. – Era sempre mais divertido o que qualquer outra coisa na face da Terra.

- Você não gosta de tocar piano? – Allyson vem em minha defesa.

De novo, ele dá de ombros.

- Às vezes. Mas “divertido” não é uma boa palavras para descrever a relação com uma forma de arte que há séculos abrange todos os aspectos da experiência humana. – Ele me olha com tristeza.  – Acho que vocês, americanos, são como crianças que não gostam de crescer. O que é isso? “A busca da felicidade”. O que é aquilo? “Ser feliz.” Onde está a nobreza de uma vida dedicada à felicidade? É um objetivozinho bem medíocre. 

- Pegue leve, companheiro. – Alysson se aproxima de mim; ela adora conflitos. – Não precisa implicar só porque ela é americana.

- Eu não estou implicando com você. – Piotr olha para mim e depois para Alysson. – Mas lá vem você de novo! “Pegue leve”! Nada pode ser sério. Tudo deve ser pequeno, rápido... leve! – Ele anda de lá para cá, frustrado, procurando pelas palavras como se elas estivessem flutuando no ar em torno dele.

- Você é o herói da sua vida, especialmente quando se trata de arte! Sem adversidade, obstáculos, onde está a aventura do herói? De que adianta? Claro que você faz filmes ruins! Comerciais bobos! E daí? Eles são os seus dragões; você os mata, e continua. Você é maior do que essas coisas! – Ele dá uma virada. – O que você tem para oferecer às pessoas, que experiências, se a vida for só “divertida”?

Abro a boca.

Depois fecho.”


terça-feira, 4 de setembro de 2012

Todos suicida, mas antes posta foto no Instagram



 Eu tinha dezesseis anos quando comecei a usar a internet de verdade, com a conexão discada que só era acessada nos dias úteis depois da meia noite - torcendo pra não cair senão teria de pagar mais um pulso na conta telefônica. E aos sábados, depois das 14 horas, até alguém me tirar do computador no domingo, depois do Fantástico.

Ainda estava na escola, época de vestibular, espinhas, festinhas de colegas, primeiros namoros. Também criei o meu primeiro blog, ainda mais bobo que esse, onde escrevia louca e diariamente. Por ele fiz amigos, conheci pessoas de cantos diferentes do Brasil, até comecei um quase namoro.

Com o ICQ entrei pro mundo dos amigos que conversam online. Esperava ansiosamente o barulhinho de um novo recado das pessoas que me eram importantes. Tinha um recurso muito bacana que era a conversa em grupo em tempo real, com todos escrevendo ao mesmo tempo, cada um no seu quadrado. Gostava.

Quando criei um perfil no Orkut, meio resistente ainda, já estava para entrar na faculdade ou no primeiro ano dela. Lá, uau, se podia deixar recados públicos, dizer o que pensava pelas comunidades, dizer quem era pelas descrições, procurar velhos conhecidos, publicar fotos divertidas, tanta coisa...

E lá estava eu, já com internet banda larga, montando meu álbum, trocando mensagens com amigos. Até cyberbulling eu já fiz, quando, no segundo ano da faculdade, me pus a pesquisar os futuros calouros pelo Orkut. Com amigos, ficava mandando recados no mural de desconhecidos que viriam a ser meus colegas logo logo. Tirava sarro, entupia de scraps o mural alheio, pentelhava mesmo. Não me orgulho, mas foi assim mesmo.

Então o Orkut deixou de ser interessante. Um dia se decidiu que ele estava "popular demais". As tias, que antes só mandavam ppt´s por email, começaram a mandar recados coloridos e piscantes nos murais do mundo todo. As correntes da ajuda ou maldição também migraram, assim como os vírus. Mas ainda era divertido pesquisar comunidades de downloads de filmes ou músicas. Dava pra fazer amigos pelo Orkut, discutir temas interessantes sem tanta baixaria nos comentários. Era um mundo mais civilizado, com pessoas se dispondo a falar sobre os temas em lugares criados para aquilo. Assim como acontece ainda hoje nos grupos de e-mail ou outras comunidades virtuais. Também não havia tanto controle sobre o conteúdo.

E lá veio o Facebook, onde, oh, tudo parecia mais interessante. A parte visual, os recursos, o modo de interagir com outras pessoas e, sim, até as pessoas estavam diferentes. Elas haviam aprendido o que não se deve fazer - menos as tias e seus gifs piscantes, que logo descobririam o maravilhoso mundo de uma nova rede social.

E todos abandoram o Orkut. Todos? Leia-se todos do meu círculo de convivência. Ele ganhou status de coisa velha, brega e fora de época. Ainda mantenho minha conta, mas não consigo ficar mais de cinco minutos logada. Sabe como é, gifs, recados coloridos, etc..

Criei meu perfil no Facebook, uma das últimas entre tantos amigos que já estavam se divertindo por lá. Sim, eu também me diverti. Primeiro descobrindo o que dava para fazer. Depois me irritei até entender como preservar minha pretensa privacidade. Depois vi que até isso era só um discurso que não se sustenta mais. Então vieram os aplicativos, os joguinhos, as mil e uma forma de interação. E, claro, as tias dos gifs piscantes, que agora gostam das imagens com frases feitas.

Ainda é um mundo novo, há tanta coisa pra se descobrir em termos de interação em redes sociais, eu sei. O Twitter, por exemplo, apesar de ter perdido muitos de seus usuários, ainda me chama atenção. De alguma forma sinto que o conteúdo que vejo por lá é mais relevante do que o do Facebook. Sim, são redes diferentes, com propósitos diferentes.

Talvez eu tenha me cansado de acompanhar a vida alheia. E o mundo sempre foi assim, desde quando colocávamos cadeiras nas calçadas pra conversar com os vizinhos, quando as ruas não eram perigosas. Hoje os vizinhos estão em suas salas, com seus rostos iluminados por telas azuis, publicando fotos de filhos e netos e curtindo frases feitas.

Posso ter cansado de me expor. O que é ridículo, já que eu mesma posso controlar o que publico ou não. Mas, assim como faço no blog, faço nas redes sociais: não diferencio o que devo ou não, o que pode ser ruim pra mim ou não. Eu acho interessante e falo, posto, publico, indico. Se vai me fazer feliz,ou a outra pessoa, publico.

Percebo que passo mais tempo rolando a bolinha do mouse óptico pra baixo, à procura de conteúdo relevante, do que lendo ou comentando publicações alheias. E pensando: sério??

E mesmo meus comentários já não acrescentam nada de tão importante à vida de qualquer pessoa. Parece que o que precisava ser dito ou feito, já foi. Sim, pode ser só ilusão, ideia absurda, mas é o que tem me ocorrido.

É como se estivéssemos parados no tempo, nos repetindo todos os dias. E ficando mais cínicos e tristes e irritados ao ver as mesmas coisas, as mesmas coisas, sem sair do lugar ou conseguir fazer algo para mudar a realidade.

O que eu gosto no Facebook tem um peso menor do que o tempo que eu perco publicando e publicando e comentando e lendo publicações e vendo fotos com filtros de imagem à lá Instagram.

De repente eu só preciso de uma férias da conexão intermitente. Voltar a ser produtiva, artística ou qualquer coisa que o valha. Qualquer coisa que não me faça sentir que deixo preciosos segundos escaparem a cada vez que digito três ou quatro palavras para três ou quatro pessoas que pensam a mesma coisa que penso, mas que não terão suas vidas alteradas simplesmente porque eu as disse.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Eu preciso aprender...

a respirar.

Saio por aí fazendo as coisas, não paro, não paro.

O coração quase sai pela boca, os pensamentos se tumultuam e se atropelam.

E como se faz pra parar a avalanche de ansiedade?


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Energia, cansaço e pessoas

Foto: eu e o sol em Florianópolis

É muito fácil me conhecer. Eu estou sempre disposta a mostrar o que penso e o que acredito. Abro meu coração para as pessoas e sempre aposto que elas são essencialmente boas. Este blog é um exemplo claro disso. E, bem, provavelmente vou continuar sendo dessa maneira.

O caso é que confiar demais o tempo todo resulta em duas situações que machucam. A primeira é sentir que a confiança foi dada a quem não merecia. A segunda é se sentir exausta, sugada, sem energia, por conta do excesso de exposição. E, cá pra nós, as duas sensações poderiam ser evitadas se eu soubesse medir melhor minhas palavras e escolher poucas pessoas para conversar sobre a vida. Não, eu escolho todos do mundo, nunca fui boa em decisões.

Eu falo e falo e falo sobre o que sinto, o que me acontece, o que planejo pro futuro, como avalio minhas relações, o que houve na minha vida. E eu não abro apenas as informações, abro minha casa, conto minhas pequenas alegrias, meus grandes fracassos, abro todas as portas que forem necessárias. Convido para cafés, ofereço ajuda, me faço presente, dou presentes. Se você for um pouco mais esperto que eu, vai perceber que isso volta e meia deve causar problemas. Afinal, nem todas as pessoas estão dispostas e, ao contrário de mim, desconfiam mais do que confiam.

E então vejo que ainda não sei me proteger. De julgamentos, falas, conceitos alheios, ideias. Que ainda considero todos tão sinceros e puros e com boas intenções que não sei medir o que é bom e o que não me serve.

Estar sempre de coração aberto é um risco. Você chega desprevenida e nunca está preparada para o que pode vir. E às vezes vem chumbo grosso.

Em geral eu sou muito feliz com o que sou, com o que faço, com o que vivo. Quando eu sinto um cansaço repentino, na maior parte das vezes tem a ver com o quanto me expus ou me iludi com situações e pessoas. E comigo mesma, claro.

E então é preciso me reequilibrar. Pensar sobre o que estou fazendo de errado, o que está me afetando e o que posso melhorar. E quais canais que, abertos atualmente, estão me deixando pra baixo. Afinal, eu não sou assim. Eu sou muito mais. Mais cheia de vida, mais empolgada, mais criativa.

Bem, acho que ainda sei me reinventar. E eu sei que é um ciclo e que vou confiar novamente e ser feliz por um bom tempo até perceber aqui e ali alguns tropeços. Irei me aborrecer, me resguardar, me reequilibrar e voltar ao começo. Ainda bem.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Mais estranho que a ficção - a vida que pode acabar amanhã



Eu achava que já tinha assistido "Mais estranho que a ficção", mas não. Provavelmente é um dos tantos que comecei e parei, aluguei e devolvi com atraso na locadora, pagando 30 reais por 17 minutos de um filme que não vi.

Mas hoje eu vi. Na última vez que comecei e parei tive ótimas ideias pra escrever livros. Que talvez nunca escreva, também. Hoje não tive, mas pensei: e se eu soubesse quando minha morte seria, ficaria preocupada e iria mudar algo? Quer dizer, saber que vai morrer, bem, todos sabemos. Mas é como se fosse algo que estivesse sempre distante e no qual não é preciso pensar. Bem, a morte é sempre com o outro, até que aconteça com você. E na hora que acontecer talvez você não tenha essa consciência, então, tudo bem.

E o que eu ia dizer é que o personagem do filme de repente se depara com a certeza de que a qualquer momento, muito em breve, vai acontecer sua morte. E ele diz "não, não posso morrer agora". Claro que é no momento em que a vida dele começa a ser boa, em que ele se apaixona de verdade e descobre a alegria de comer um biscoito com um copo de leite.

O filme tem ótimos momentos de comédia irônica, humor negro bem criado em que não se sabe bem a diferença entre o riso do absurdo e o drama. É ótimo. E tem a parte em que o Dustin Hoffman olha pro personagem e diz: você tem de morrer. Os grandes heróis sempre morrem, mas as suas histórias sobrevivem. Ele quer dizer que é justamente na morte que a vida ganha destaque. Que sem ela nenhum história seria grande. Que é o contraponto de toda narrativa.

Bem, no filme o Will Ferrel se descobre personagem de um livro que está sendo escrito e se dá conta que a escritora pretende matá-lo. Ele vai ouvindo sua rotina sendo narrada, dia a dia, e então a história do filme se desenrola.

Então o que me ocorreu foi, claro, clichê dos clichês: se houvesse a certeza de que amanhã você morreria atropelado por uma moto às 10h14, na frente da padaria... E então? Ou que seria na semana que vem, por uma reação a um medicamento aleatório, enquanto vai ao banheiro lavar as mãos. Ou que seria daqui a um mês, em um tumulto no meio de um show. E então?

A certeza da morte todos têm, mas a gente vai ignorando um pouquinho todo dia até que ela passe a ser um elemento estranho: oh, a morte. E assim vamos, até o dia surpresa, a hora surpresa. E todos lamentam. Tão cedo, tão jovem, tão feliz, tão bonita, tão recém promovida, ainda ia ter filhos, o neto acabou de nascer, estava concluindo o doutorado, acabara de se apaixonar aos 76 anos.

Eu gosto do final, gosto da descrição dos detalhes que podem mudar tudo em uma vida, que podem salvar ou matar alguém a qualquer momento.

Aqui tem a música Whole wide World, parte de uma cena muito bonita no filme.



sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Agora


É preciso escrever das coisas rápidas que passam rápido. Sem pensar muito, sem esperas, sem reler e ler de novo antes de publicar.

O dia e a internet dizem que não há porque se demorar em nada. Mas em nada, será mesmo? Eu ainda aposto na demora. E tenho descoberto que muitas das melhores coisas da vida só aparecem ou são apreciadas ao longo do tempo. Assim aprendi a não me desesperar por resultados. Que a vida é o caminho e não a chegada. Que o beijo é cada vez melhor quando a espera é de uma semana. E que o aprendizado só entra na cabeça depois de uma longa noite de sono.

Mas mesmo assim é preciso escrever sem delongas, sem pretensões, o agora. O agora é importante. Eu que tantas vezes deixo pra depois só pra fazer melhor. E pra que tão melhor e pra quê tão depois?

Por que não o agora, e por que não dizer agora, agora mesmo? Eu amo.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Discursos

O que existe além do discurso? O discurso é a propaganda de algo que deveria ser daquela forma. É a embalagem do presente, que promete tanto e por vezes não é nada.

Cansei de discursos, alheios e meus. Os da tv, os da novela, os da internet, os de comerciais.

Ainda não me cansei dos discursos da música. E os de alguns livros. E os de algumas pessoas, tão poucas.

Mas me parece que é tudo tão fake, tão projetado, tão mentiroso.

Identificar o discurso preparado pra um determinado fim é destruir a imagem de beleza ou diversão de uma vida toda. Alguns dizem que é crescer, eu digo que é só cortar metade do tesão.

Acreditar é a base de uma vida no mínimo colorida. Sim, é errado se apegar a discursos, é errado querer acreditar em imagens prontas, montadas pra causar o impacto x ou y.

É errado.

E os discursos andam me cansando. Não andam, já cansaram. Foi instantâneo: ok, cansou. Ok, percebi. Ok, não consigo engolir.

Em meio segundo o cenário é trocado, enquanto caminho pra chegar em casa ou estendo a mão pra pegar a toalha ao sair do banho.

Rápido, repentino. E pronto, uma nova falta de paciência, um universo antigo visto de outra forma.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Tilt

Minha mente é programada pra pensar antes de sentir. Então eu me esforço pra sentir imediatamente à ação, teoricamente isso funcionaria, meu cérebro diz. Mas se a mente é esperta e ela mesmo me apontou essa hipótese, jamais vai deixar isso acontecer. É tudo um truque. Mas e se... e se... Oh céus, luta inglória... É algo parecido com o robô que foi desenvolvido pra nunca perder no joquempô (no vídeo ali embaixo). Ele identifica os movimentos tão rapidamente que consegue calcular qual será a sua jogada.



Pensar, pensar. É uma questão de manter o controle, o próprio e o da situação. Você conhece a necessidade de estar sempre no controle?

Quando eu era criança, tinha a sensação de que não podia dormir em viagens de carro. Um acidente iria acontecer se eu me descuidasse. Eu, ali no banco do carona. Ou no banco de trás, com minha pequena existência de seis, sete anos de idade. Minha família toda destroçada, o cachorro voando pelo vidro, o carro rodando na pista... Opa, preciso cuidar. Na primeira curva eu acordava. E ia conversando com meu pai por 400 quilômetros. Ele fingia não saber porque eu falava tanta bobagem enquanto todos dormiam.

Ainda faço isso. Acordo na curva e começo a falar pelos cotovelos.

Afinal, ainda não posso me descuidar. Das pessoas, dos objetos, dos carros, dos animais, da esquina, das contas, da bagunça de casa, do ônibus que vai chegar, do remédio na hora certa, da família, da porta que tem de ser trancada. Quando esqueço ou acabo sucumbindo ao cansaço: pesadelos. Fugas, perseguições, desastres, desastres, desastres. O caos. Sempre alerta, sempre alerta, o mundo pode acabar de uma hora pra outra se eu não estiver muito atenta. Se não souber o que fazer no próximo dia ou semana. Se não souber o que falar na próxima conversa. O que fazer em cada situação, eu sempre sei. Pode ser questão de milésimos de segundos, eu sempre sei. É um carma. Eu leio rápido, interpreto rápido, penso rápido, imagino rápido, mal respiro.

Sentir significa estar vulnerável a. E pra evitar, eu acabo me encapsulando. Plástico filme, papel crepom, plástico bolha, papel alumínio, pequenas quinas de isopor. Pronto, não há impacto que seja sentido. Eu andando que nem um pinguim agasalhado, quase sem me mexer. Mas olhando pra tudo. Prevendo problemas, ações, reações, anos. É quase patético. 

Mas como ninguém é só razão, tenho lá meus momentos de sistema fora do ar. Quando algo me atinge forte, ultrapassando todos os plásticos, papéis e tipos de proteção que carrego: tilt. Como é que não dá pra usar a lógica em tudo na vida? Como? Como não? Tilt. Uma mesa de pinball em que o jogador bate, bate, vendo que vai perder o jogo. E o sistema trava.

Então eu digo: eu não sei o que fazer. Eu não sei o que fazer. Eu não sei o que fazer. Espera, EU não sei o que fazer? E uma amiga me diz: e por que, criatura, você SEMPRE TEM DE SABER O QUE FAZER? Porque é só o que sei: pensar no que tenho de fazer para resolver. 


Dê-me um problema e eu irei resolvê-lo. Irei pesquisar, pensar, apontar um caminho, irei com você à rua pra vender rifa de jogo de panelas pra conseguir dinheiro para sua cirurgia de ponte de safena. Irei até o governador, até o presidente, farei protestos, falarei com pessoas, escreverei, criarei músicas, dançarei pra trazer chuva pro deserto, se um dia em Curitiba parar de chover. Sou boa nisso. E sou péssima em me deixar sentir. Só sentir. Sem ter de fazer absolutamente nada. Sem pensar, planejar, prever. Sem criar expectativas, fazer promessas. Sou péssima porque sentir significa não saber mais nada. Que tudo o que se sabe ainda é pouco e sempre será. Pior: o que se sabe não importa. Não vale um centavo. 


E todos os caminhos que consigo ver quando alguém me apresenta um problema desaparecem quando o que a vida me pede é: só sinta. Apenas sinta. Não precisa falar, escrever, pensar, criar. É só isso. Meu Deus, como se faz apenas isso? Nunca me preparei pra simplicidade que é não ter de fazer nada além de me deixar levar por mim mesma. Eu quero aprender. Mas aprender é pensar, raciocionar sobre a experiência. Céus. Aprender a sentir é uma incoerência ridícula. 


Bah, deixa pra lá.


Mas e se...







domingo, 17 de junho de 2012

Sabe por que...



...eu ainda escrevo aqui, sendo que poderia fazê-lo em qualquer outro lugar escondido, em arquivos de computador, em outro computador, em folhas avulsas, em diários que mantenho desde os 8 anos de idade? Porque o blogspot me diz que todos os dias pessoas entram aqui pra... ler o que escrevo. O que é um tanto quanto estranho, já que muitas vezes não escrevo absolutamente nada. E o contador do blog fica me dizendo: 4, 8, 15(!), 6, 2, 0 (uh, aí sim, normal). E eu não sei quem são essas pessoas (fora uma ou duas) que se dão ao trabalho de. Mas os números estão aí.

Pode ser uma pessoa apenas. Ela está trabalhando e descobriu o blog e, poxa, gosta, então fica atualizando várias vezes por dia, apertando F5 no teclado e me fazendo pensar que são várias quando é uma só, maluca e entediada.

Podem ser amigos que acham graça nas besteiras.

Podem ser desconhecidos que caíram aqui por procurar palavras aleatórias no Google.

Podem ser projeções da imaginação do Blogspot, que, não tendo muito o que fazer na minha conta de blogs, resolve se divertir me iludindo com falsas alegrias.

Ou pode ser, simplesmente, que eu escreva algo que faça bem ou atraia ou seja divertido ou deprima, mas que de alguma forma, causa curiosidade e vontade em alguém ou alguéns.

E é só por isso, por mais nada, que continuo escrevendo. Pra meu grande universo de cinco ou seis leitores fiéis e entediados.

Amo vocês. Seja lá quem forem, sintam-se abraçados e, se um dia me procurarem pra conversar, pagarei um café com coxinha pra cada um.

sábado, 9 de junho de 2012

Na estratosfera e subindo


Imagem tirada desse site aqui: http://migre.me/9qaOx 


Quando foi, quando foi que eu comecei a achar que tinha de ser coerente? Começo, meio e fim, histórias com sentido, falas planejadas e sagazes, almoço na hora do almoço, shampoos para o meu tipo de cabelo?

Eu não sei, mas quando havia meias histórias, meias frases e músicas sem lógica acho que havia mais sentido, por mais estranho que pareça.

Esses dias perguntei a um amigo se ele era gay. E que eu sempre tive essa dúvida. A resposta dele:
- Não, mas não se preocupe, muita gente me pergunta isso.
- O engraçado é que eu só achava isso pelo seus perfis na internet. Pessoalmente não, você é bem... hétero.
- Não se preocupe, a maioria das pessoas me acham gay na internet e também pessoalmente.
- Hum. Tá.
Mudamos de assunto. Segui o conselho e não me preocupei mais.

O fato é que nunca sei o que fazer com meu tempo livre. Isso ficou óbvio nos últimos meses, quando o que mais tive foi tempo, espaço, o mundo todo pra fazer o que eu bem entendesse. Vai ver que eu não bem entendo quase nada.

E os vazios existenciais, já te falei deles? Como boa neurótica - já me disseram pra parar de falar assim, mas me disseram tanta coisa e eu já descartei tantas delas - eu me movo para driblar problemas, matar monstros, defender seres indefesos, lutar contra o que está contra o que é a favor, acordar para derrubar muros, subir montanhas, escalar edifícios e depois fazer rapel. E de repente eu pego minha listinha de necessidades básicas e vejo que fiz um "ok" ao lado de todas elas. São básicas, é verdade, mas de que mais precisamos? De que mais eu preciso?

Tenho que dividir uma alegria pequena que me faz bem: receber ligações de empresas me convidando pra processos seletivos. "Não, obrigada, já estou empregada" é uma das frases que mais gosto de dizer nos últimos tempos. Porque, raios, valorizo muito isso ultimamente. Sim, eu demoro a aprender algumas coisas e outras eu simplesmente absorvo como que por osmose. Essa foi das lições difíceis de aprender.

Os vazios existenciais, temos de voltar a eles, na verdade têm a ver com meu medo de dar certo. Sim, medo de dar certo, já teve isso? Medo de ser feliz, medo de atingir tudo o que se quer. Meu Deus, e se de repente eu estiver sendo feliz? Qual é a penitência que mereço? Ser feliz assim deve ser pecado, não te ensinaram isso? Então chegam os questionamentos que não passam de um monte de absurdos da minha mente tentando me lograr e tirar meus motivos de alegria, dissecando-os um a um até me fazer ver algum problema escondido na sombra. Mas que sombra? É um sol de meio-dia, eu digo, e ela, a mente, só faz "humpf" e busca algo novo pra reclamar.

 Os vazios existenciais não são mais do que medo do desconhecido. O que é superficial eu já conheço. Mas o que há além? O que há?

Várias camadas de céu, uma em cima da outra. Até qual delas você consegue subir?

domingo, 13 de maio de 2012

Filmes online, escada andaime e suicídio

Foto: Filme "Noivo neurótico, noiva nervosa", de Woody Allen

Por que a tecnologia gera necessidades infinitas de consumo? E por que eu deixo que isso afete a minha, a sua e a vida do meu cachorro?

É que... tenho filmes online para assistir até morrer aos 83 anos. "Uau, olha só, tem de tudo no catálogo!" Mas não tenho uma TV grande que me dê uma imagem digna que me faça dizer "ow, isso é entretenimento de qualidade". E se eu comprar uma TV grande, terei de comprar uma estante pra ela. Com a estante e a TV na sala, agora é a vez de precisar de mais espaço. Então eu vou para um apartamento mais espaçoso para ter mais conforto e viver melhor. Lá no aparamento novo, que é maior e melhor, fica faltando um sofá decente, de preferência daqueles que dá para puxar e te fazer ver TV deitado. Ok, já tenho uma TV, uma estante, um apartamento novo e um sofá. Acho que agora posso colocar um quadro grande e bonito na parede, sim, aquele que comprei pela internet há anos e não sabia bem onde pendurar. Mas meu apartamento tem um pé direito de quatro metros... Vou precisar de... uma escada andaime!!!! Isso, aquela que dá pra comprar na Polishop, e, veja que bom, posso usar ela pra regar samambaias no teto, para limpar a calha no telhado (opa, é um apartamento) e até para pendurar cabides e assim, jogar fora meu guarda-roupa.

De repente tenho um surto de lucidez: ei, eu não queria nada disso, essa escada andaime, meu Deus, o que vou fazer com ela, além de guardar de maneira prática debaixo da cama?

A vida era mais simples, barata e normal quando eu precisava ir até a locadora e escolher bem o filme porque pagar R$ 6,50 por um lançamento, bem, tinha de valer a pena. Então eu andava algumas quadras e conversava com outros clientes sobre filmes que já viram e meu cachorro aproveitava a caminhada pra fazer xixi nos postes e socializar com as cadelinhas do bairro e eu tomava ar fresco no final da noite enquanto decidia o que iria comer enquanto veria o próximo filme.

Agora eu só preciso dar dois cliques e deitar no meu lindo e confortável sofá, mas fico me lembrando que espaços muito altos me dão medo e o teto do meu apartamento, que é terrivelmente alto, me desconcentra totalmente. E a escada andaime, que nunca mais tirei do lugar, está encostada no canto pra que seja mais prático regar as samambaias, e elas, as samambaias, estão tão perto da janela que, quando olho pro cenário à minha volta e me lembro que meu cachorro faz xixi todos os dias no lindo e confortável sofá porque eu não saio mais com ele, já que tenho milhares de filmes sem precisar ir à locadora, bem, tudo isso  me faz ter vontade de usar de fato a escada andaime para algo digno: voar de cima do décimo quinto andar.

domingo, 6 de maio de 2012

"Morrer enquanto corro" ou "sou tão menos hoje..."

Você já teve a impressão de ter sido "mais" em algum momento do seu passado? Tenho uma impressão, de tempos em tempos, que já fui mais interessante, mais criativa e que usava melhor meu potencial. Tenho textos meus que leio e penso: uau, eu escrevi isso? Talvez eu estivesse estudando ou trabalhando mais (sem dúvida), mas o caso é que eu me expressava, ousava, corria e não tinha medo de quase nada.

Será que é isso que chamam de envelhecer? Ser menos, ainda que poucas pessoas ou ninguém note? O espelho nem mostra essas sutilezas, só uma ou outra marca que logo vai virar ruga, uns poros mais abertos, mas nada que alguns dinheiros em uma clínica de estética não resolva. Mas e o "ser menos"? Quem resolve? Talvez seja isso mesmo, ir perdendo sues pedaços pelo caminho, quando se vê, nossa, tenho só meus dedos e um pulso sem força. 

Vejamos. Se eu exagero em tudo e minha velocidade é maior do que a maioria das pessoas, se faço rápido, enjoo rápido, desisto rápido e recomeço, o tempo todo, e se nisso aplico todas as minhas forças, pode ser que minha vida também acabe mais rápido. Que um dia, aos trinta e dois, eu acorde sem energia nenhuma. Causa mortis: excesso de velocidade.

Ou não.





terça-feira, 17 de abril de 2012

Partes do livro que escrevi que talvez nunca exista de fato

"Ainda são cinco da manhã, mas o sono foi embora há 10 minutos. Liliana encara a luz do poste que entra pela cortina e sabe que não há o que fazer nesses minutos todos. Logo deve passar o tio dos salgados rua acima com o carrinho barulhento com rodas velhas. Geralmente essa é a hora do xixi, quando a bexiga cheia trava uma batalha contra a preguiça. São sete passos até o banheiro, mas o problema é toda a operação que envolve a mobilização dos ossos e músculos, o tatear da mão em busca do interruptor, dez segundos sentada na privada. E é arriscado fazer todo o trajeto só para descobrir que o papel higiênico acabou e ainda faltam três horas para o mercado mais próximo abrir. Ela acha constrangedor comprar papel higiênico na padaria, por mais que muita gente faça isso. Não conseguiria olhar pra cara da caixa e ouvir: “quatro e cinquenta” enquanto ela coloca na sacola o pacote e fala: “próximo”. Constrangedor.
Hoje é um dia desses em que a luz do poste está especialmente clara, as rodinhas do carrinho de salgados passam fazendo tic tic tic e o papel higiênico pulou todo para a lixeira, já usado. Mas quem sabe o sono pode voltar atraído pelo trio cama-coberta-posição-perfeita. De costas, a perna esquerda dobrada, a direita esticada, as mãos debaixo do travesseiro e a pontinha do nariz pra fora, respirando só o necessário. Ontem no jornal passou matéria sobre infecção urinária: pode surgir em mulheres que demoram muito tempo para fazer xixi, horas com a bexiga cheia. Infecção significa ter de arcar com o preço alto dos antibióticos. E toda aquela história de tomar a cartela toda senão a bactéria volta, mutante, mais forte que antes. Bem, se esquece de comprar até papel higiênico, quem garante que irá se lembrar de tomar comprimidos a cada oito horas? E se a infecção piorar poderá precisar do cuidado de outra pessoa. As piores hipóteses surgem pra amendrontar Liliana que de repente precisa respirar mais fundo: a vizinha, a tia, a avó evangélica. Terá de faltar ao trabalho e a nova funcionária, a que usa um quilo de pó de arroz por dia, poderá magicamente mostrar que tem cérebro ou peitos e conquistar o seu espaço, novas vantagens na empresa e elogios forçados por quem quer mais e mais rendimento. Seria então “Olá tia Carminha, adeus emprego”. Três minutos de suposições com pensamentos bola-de-neve bastam para a decisão final: um banho e pronto.  Água corrente, sabão pelo corpo e o xixi caindo urgente pelas pernas. É mais quente que a água do chuveiro. Em pouco tempo está livre da infecção urinária e ainda garantiu o emprego. Pronta para o trabalho, não são nem seis da manhã. Banho curto, ela teima em acreditar nas verdades ecologicamente corretas. Foi na revista que leu que se os brasileiros diminuíssem o tempo de banho de 12 para 6 minutos diariamente, seria possível economizar toda a energia produzida em Angra dos Reis em um ano. Pra gastar, é claro, nas luzinhas de Natal. Que a beleza ainda é mais importante que saúde, óbvio."

Tudo bem, tudo bem

Sinto falta de escrever. Então às vezes entro aqui e no blog antigo e leio, leio, leio. Quase não me reconheço. E na hora de começar um novo texto é o cursor que fica piscando e me pergunta: e aí, garota? E aí, e aí? Aí o que está lá dentro das milhares de voltas do meu cérebro não consegue achar a saída do labirinto. E o cursor tira um baita sarro: que patética, olha só. Pra quem tinha sempre tanto a dizer, ter brancos é ridículo. Eu acho, sempre, o tempo todo.

Mas as coisas são ridículas e... tudo bem ser assim.

domingo, 18 de março de 2012

Borboalegres

 Mais alegrias nas horas infinitas da tarde!, ela dizia.

E saía a caçar sorrisos como borboletas coloridas que fugiam com as amigas mariposas para o poste mais próximo, convidando a uma vida tão (tão) mais luminosa e quente.

A alegria das borboletas (elas não sabem) mata pouco a pouco até o fim dos minutos das horas das tardes infinitas.